O cronista polêmico que conquistou leitores e desafetos; o
filho ressentido que rompeu definitivamente com toda a família;
o anticasanova mirrado e desleixado que atraiu incontáveis
mulheres; o boêmio alcoólatra delirante que podia ser
delicado como uma criança, desagradável como um
velho rabugento ou engraçado como um palhaço; o
depressivo e paranóico que se imaginava sacaneado por todo
mundo; o ateu confesso que se tornou católico
praticante,quase monge;o escritor militante que reivindicava a
profissionalização da atividade. Em
ÓRFÃO DA TEMPESTADE, lançamento
da Objetiva, o jornalista Jason Tércio examina as
múltiplas faces de José Carlos Oliveira, o Carlinhos
Oliveira, assim conhecido nas redações, bares , boates,
restaurantes e festas da Zona Sul carioca, um dos mais atuantes e
festejados cronistas nas décadas de 60 e 70.
Mergulhado em quatro anos de pesquisa, Jason Tércio
ouviu cerca de 250 pessoas que tiveram contatos relevantes com
Carlinhos em algum período de sua vida. Leu as mais de duas
mil crônicas publicadas em jornais desde os 16 anos, os
romances (todos esgotados), contos, consultou uma bibliografia
complementar, teve acesso a preciosos documentos inéditos -
correspondências, diário, anotações etc.
No Jornal do Brasil, durante 23 anos ininterruptos
(1961-1984), Carlinhos desenvolveu um texto enxuto, elegante , com
alta voltagem literária. Cutucava a política com vara
curta, mais no plano filosófico-poético que
ideológico- partidário, e na arena cultural não se
intimidava diante de obras ou autores consagrados. Alternou a
linguagem da crônica típica com vôos mais
ambiciosos, romances seriados, recuperando o folhetim.
Uma
releitura da obra de Carlinhos Oliveira ajuda a enriquecer a
análise de alguns temas fundamentais da História
brasileira: a modernização da imprensa, a
agitação social que enterrou o populismo em 62-63, a
ditadura militar, a guerilha urbana, os movimentos culturais
(Concretismo, Bossa Nova, Cinema Novo, Tropicalismo), a
liberação sexual e as drogas, a contestação
estudantil e a redemocratização dos anos 80. Carlinhos
discutiu tudo isso, como participante ou observador ativo e
provocativo. Quando morreu, em 1986, aos 52 anos, tinha publicado
quatro romances e três antologias de crônicas, deixando
inéditos uma peça teatral, um livro de contos editado
postumamente, Bravos Companheiros e Fantasmas , e centenas de
textos esparsos.
Como escreveu Carlos Heitor Cony,
"ninguém como Carlinhos Oliveira, em seu tempo e lugar,
percebeu o vazio da condição humana. Sua obra, apesar
de fragmentada, pode ser encarada como o maior romance
contemporâneo".
Nessa biografia, Jason
desmitifica algumas lendas criadas em torno de uma vida bastante
complexa e que teve de tudo: cenas rocambolescas,
mudanças intermináveis de endereço,
alcoolismo, paixões tumultuadas, drogas, suicídio,
misticismo, sucessivas internações em hospitais. Um
anti-herói picaresco, que não estava exagerando ao
declarar: "Minha própria vida é muito mais
interessante do que qualquer aventura imaginária".
Jason Tércio é jornalista com mestrado em
Literatura Brasileira. Foi redator no Jornal do Brasil e O Globo e
radialista na BBC de Londres. É autor do romance A
pátria que o pariu e do romance reportagem Os
escollhidos, além de contista premiado em diversos
concursos nacionais.