A Cruel Banalidade do Cotidiano em
Contos de Sônia Peçanha
Esse início de século vai entrar
para a história da literatura brasileira como a fase da
revalorização do conto como gênero
literário. As editoras vêm se rendendo ao talento e
contemplando uma nova geração de escritores que se
dedicam a escrever, como bem definiu Júlio Cortazar, textos
que correm em poucas linhas e alta velocidade narrativa, capaz de
nocautear o leitor com seu impacto dramático concentrado.
Em TRAIÇÃO E OUTROS DESEJOS,
Sônia Peçanha chega para se juntar a esse time.
Qual é a pior das traições? A
da amiga que rouba o amante? A do marido que deseja a
própria filha? A de um pai que estupra? A do silêncio
que compactua? Ou a do destino que te oferece pistas falsas de um
futuro feliz? Num estilo refinado, Sônia Peçanha desfia
com mestria de grande narrador nossas sutis traições
cotidianas. São histórias irônicas, pungentes,
divertidas. Flashes de um cotidiano que se revela em toda a sua cruel
trivialidade. São personagens comuns – existências
pálidas, fugazes, duelando com sua insuspeita banalidade.
Nos dezesseis contos reunidos em
Traição e outros desejos , a autora revela
ângulos inusitados dos fatos mais banais da vida humana. A
obsessão de um pai que descobre na própria filha uma
bela mulher. A divertida guerra conjugal quando surge a suspeita do
adultério. O inusitado encontro de um dentista e um
personagem da noite nos bares da Lapa. O pesadelo e o sonho de
um menino num parque de diversões. A culpa e o medo que se
infiltram, silenciosos, no dia-a-dia.
Esgueirando-se pelos labirintos da vida familiar, a
autora atinge momentos de especial qualidade literária em
textos como "Anatomia do Silêncio", um doloroso
retrato do lento eclipse do ser humano, e "Estufa", um
cenário sufocante de desejos traídos a se revelar sob
o aparente amor filial. Já em "Ponte Fixa", numa
narrativa envolvente, o texto flui irônico, sutil e irreverente.
SÔNIA
PEÇANHA é mestre em Literatura Brasileira, autora
de Depois de Sempre, finalista do prêmio Jabuti em 1994.
Em 1990, com o livro Anatomia do Silêncio, foi finalista
da Bienal Nestlé de Literatura. Vários contos de sua
autoria foram premiados em concursos literários do país
— Prêmio Cora Coralina (Minc), em 1986; Prêmio Clarice
Lispector (Universidade Federal de Uberlândia), 1984 e o
Prêmio da Universidade Federal de Alagoas, em 1985.