Em seu primeiro livro, Carlos Diegues nos
brinda com um olhar pessoal e revelador sobre o cinema
Do início de sua carreira, em 1961,
num dos episódios de Cinco vezes favela, até
a realização de Deus é Brasileiro, em
2003, Carlos Diegues dirigiu 15 filmes. Neste livro, muito mais do que
um relato do making off de sua obra mais recente, o cineasta,
aos 42 anos de profissão, compartilha com o leitor
reflexões e sentimentos, construindo um delicioso
inventário sobre a arte de fazer cinema.
Nascido durante as filmagens e concluído
17 meses depois do filme pronto, O Diário de Deus
é Brasileiro pode ser lido como um grande ensaio sobre o
trabalho de um diretor. São dúvidas, apreensões,
alegrias, referências. É a solidão de quem cria,
é o convívio intenso com atores e equipe. É a
gestação de uma história. Do filme que se
imagina, do filme que se constrói e do filme que se finaliza na
sala de montagem. Ao longo de todas estas etapas, um emocionante
aprendizado sobre a alma humana.
Numa narrativa caleidoscópica e
envolvente, a cada página deste diário vamos
sabendo como um dos mais talentosos e atuantes artistas brasileiros
vivencia o cinema como criador e também como espectador.
Diegues comenta o trabalho de outros cineastas, reporta-se a
episódios significativos da trajetória da
produção cinematográfica brasileira e mundial das
últimas décadas e celebra a liberdade criativa de
nossos dias.
Filmografia de Carlos Diegues
(por data de lançamento)
Cinco vezes
favela (episódio), 1961
Ganga Zumba,
1964
A grande cidade, 1966
Os herdeiros,
1969
Quando o carnaval chegar, 1972
Jonna
Francesa, 1974
Xica da Silva, 1976
Chuvas de verão, 1978
Bye Bye, Brasil,
1980
Quilombo, 1984
Um trem para as
estrelas, 1987
Dias melhores virão, 1990
Veja esta canção, 1994
Tieta do
Agreste, 1996
Orfeu, 1999
Deus é
brasileiro, 2003
Takes
Para Carlos Diegues, como na
fabricação de um filme, os textos de O diário
de Deus é Brasileiro são takes que podem
ser montados na ordem em que aparecem aqui ou em outra ordem
qualquer, como melhor aprouver ao leitor: "Digamos que se
trata de um copião, o material bruto de uma experiência
cinematográfica(...). Gostaria que este material servisse aos
que amam o cinema e aos que se interessam pelo cinema
brasileiro."
* * *
"O momento
mais terrível na vida de um cineasta é aquele em que,
no primeiro dia de filmagem, no primeiro minuto da jornada de
trabalho, todo mundo no set à espera da iniciativa do diretor,
um assistente lhe pergunta onde deve colocar a câmera. Como
a câmera pode ser colocada em milhares de diferentes
posições, tantas quantas permita o espaço onde
se vai filmar, há sempre a angústia de que a escolha
comprometa todo o resto do filme, perdendo-o para
sempre."
* * *
"Nossos filmes falavam sobre o Brasil real e
inédito, às vezes insuportável de ser visto
pelos próprios brasileiros, o oposto da contemporânea
Bossa Nova, que refletia o país elegante e harmônico
de nossos sonhos. O Cinema Novo era o que somos; a Bossa Nova,
o que gostaríamos de ser."
* *
*
"Meu amigo desde a
época de faculdade, Affonso Beato tinha se lembrado de que
eu havia decretado a morte do Cinema Novo numa
entrevista polêmica que dei no início dos anos 70.
Não foi bem assim. Na verdade, eu dizia que era preciso
encerrar o ciclo histórico do Cinema Novo pois, àquela
altura, o movimento estava se transformando num monumento
sufocante, involuntariamente repressivo em relação
às novas gerações de cineastas brasileiros que
precisavam emergir."
* * *
"O melhor do cinema contemporâneo
é a expressão fragmentada de idéias pontuais,
através de personalidades fortes e distintas entre si. Não
existem mais padrões cinematográficos a seguir, uma
cultura de modelos consagrados a partir de conceitos generalizantes
e tautológicos de cinema. Essa fragmentação
universal das tendências cinematográficas é um
imenso alívio para os novos cineastas do mundo inteiro, livres
de cânones e de mestres cortadores de onda."