O olhar impiedoso e sagaz de Carlos
Heitor Cony sobre o golpe de 64 na reedição de um
clássico do jornalismo brasileiro
"E de repente, depois do 1o de
abril, ali estava aquele cara dizendo tudo que a gente pensava sobre
o golpe, sobre a prepotência militar e a pusilanimidade civil, com
uma coragem tranqüila e uma aguda racionalidade que tornava
o óbvio demolidor e sem perder o estilo e a
graça." Luis Fernando Verissimo
No dia 1o de abril de 1964, Carlos
Heitor Cony saiu às ruas e não acreditou no que viu.
Havia no ar uma mistura de euforia, covardia e medo. Pessoas
corriam assustadas, outras cantavam o Hino Nacional. E havia armas,
muitas armas. O pesadelo estava apenas começando. Cony
percebeu que era hora de falar. Era urgente dizer o óbvio
que o cidadão comum estava com medo e
envergonhado. Da redação do Correio da
Manhã, ele escrevia no calor da hora, os atos que
marcavam aquele fato histórico.
Dia a dia, o escritor testemunhou em sua coluna
a história se fazendo diante de seus olhos. Assim escreveu
crônicas memoráveis, reunidas pela primeira vez em livro
pelo editor Ênio Silveira. O lançamento da obra, ainda em
64, tornou-se o primeiro ato de protesto civil depois do golpe. A
primeira tiragem se esgotou rapidamente e o livro se tornou
referência no mercado editorial brasileiro.
Quarenta anos depois do golpe, o livro
símbolo da resistência ainda mantém seu vigor.
Com textos complementares de Otto Maria Carpeaux, Márcio
Moreira Alves e Edmundo Moniz, O Ato e o Fato
é reeditado pela Objetiva em edição
cuidadosamente fiel à publicada em 1964, num convite a olhar
nos olhos desse passado, tentando encontrar pistas do Brasil que
temos hoje.
Uma oportunidade valiosa
para os que não tiveram a chance de conhecer a arguta ironia
desses textos antológicos. Uma nova chance para os querem
voltar a se deliciar com a sátira impiedosa de um grande
escritor.
Carlos Heitor Cony,
membro da Academia Brasileira de Letras, é um dos
romancistas mais talentosos do país. Ficcionista original,
reconhecido pelo pública e crítica especializada, Cony
nunca abandonou o jornalismo. Como colunista diário, escreve
hoje para a Folha de S. Paulo. Suas crônicas
mantêm a clareza e a contundência que o consagraram
como um dos nossos jornalistas políticos mais importantes e
mais ainda, revela sua dimensão profética: "o Ato
é esse mostrengo moral e jurídico que empulhou o
Congresso e manietou a Nação. O Fato é que a
prepotência de hoje, o arbítrio de hoje, a imbecilidade de
hoje, estão preparando, desde já, um dia melhor, sem
ódio, sem medo. E esse dia ainda que custe a chegar, ainda
que chegue para nossos filhos ou netos, terá justificado e
sublimado o nosso protesto e a nossa ira."
Um clássico do jornalismo brasileiro. O
Ato e o Fato se consagrou como documento da nossa
história recente, registro que é de um olhar impiedoso e
sagaz em meio ao pânico difuso que amordaçou o
país logo depois do golpe de 64. Na época, apenas o
jornal Correio da Manhã manteve-se como voz resistente
em defesa da democracia. É nele que o jornalista e escritor
Carlos Heitor Cony começa a publicar esta série de
crônicas políticas ─ uma crítica feroz, a
denunciar as mazelas do regime que tomara o poder.