Ansiosos, transgressivos, um pouco mais loucos do que a
média, deliciosamente bizarros. São assim os
personagens deste livro, mentes embaraçadas e inquietas,
dependentes assumidos de algum remédio tarja preta
sem o qual fica muito difícil acordar, dormir, ou qualquer
variação possível do viver, dentro do
espaço de um dia, ou de uma noite.
Nesta antologia
de contos assinados por Pedro Bial, Adriana Falcão, Luiz
Ruffato, Jorge Furtado, Márcia Denser, Jorge Mautner e Isa
Pessôa, encontramos histórias contemporâneas,
tragicômicas, surreais, em que o tarja preta se entrega à
dependência sem pudor. Na verdade, ele se orgulha do
vício, mergulha destemido em ondas químicas e assim,
vertiginosamente, inventa seus paraísos artificiais.
Um dos personagens deste livro tomou um remédio tarja
preta para ficar invisível. Outro, para ganhar mais energia e
fazer sexo, ou literatura.
Uma escritora nos relata o
início de sua relação com as anfetaminas, uma
mulher conversa com seu próprio cérebro num
diálogo esquisito, engraçado, louco é a
nossa serial killer de neurônios, a que toma todos e não
saberia mesmo viver sem seus comprimidos, e sem o Otávio.
Eles têm razões, classes, salários,
idades, ambições e medos muito diversos. Mas um elo
químico os une, no sentido de que todos, diariamente,
precisam de uma determinada injeção química no
sangue, em forma de comprimidos que os ajudem urgentemente a
viver.
Uma mulher lava roupa, espera o marido, toma o
remédio para ela a drágea noturna não
é defesa nem arrebatamento, é simplesmente falta de
saída.
Já em outra história
sinérgica, um senhor anuncia a final de um campeonato de
botão, enquanto lembra como criou seu próprio time,
quando criança, dando aos jogadores nomes de
remédios. Os botões como os remédios se
tornaram seu vício, numa hilariante memória da loucura
dos anos 70.
Um casal descobre, dionisíaco, o
feitiço dos comprimidos que relaxam, acalmam ou revigoram as
performances sexuais. Uma jornalista passa a sexta infernal tentando
se lembrar do que fez ontem à noite, em mais um
apagão na sua longa lista tarja preta.
Nenhum destes
personagens parece normal de perto ninguém
é mesmo normal , mas a paixão
incontrolável pela química torna essa trupe ainda mais
estranha, formando um divertido Tarja Preta Futebol Clube
como anuncia o personagem criado por Pedro Bial em seu conto,
"Dondon Experiência".
Os Autores
O
mineiro Luiz Ruffato publicou Eles eram muitos
cavalos (prêmios APCA e Machado de Assis da Biblioteca
Nacional, traduzido para o italiano e francês), Mamma, son
tanto felice e O mundo inimigo, entre outros livros. Seu
interesse pelo universo da periferia urbana está presente aqui,
no belíssimo conto "Sem Remédio".
Adriana Falcão, escritora e roteirista de TV e
cinema, autora de sete livros, para crianças e adultos, entre
eles A máquina, que se transformou em peça de
teatro e vai ser adaptado para o cinema, escreveu o conto "Serial
Killer" inteiramente construído por meio de
diálogos.
Também experiente roteirista de
televisão, o gaúcho Jorge Furtado, que
já dirigiu três longas e escreveu um livro de contos,
Meu tio matou um cara, assina aqui o delicioso "Frontal com
Fanta".
Escritora respeitada desde os anos 70, a paulista
Márcia Denser é autora de seis livros, tendo
obras publicadas nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda,
Suíça, Bulgária e Espanha. Nesta antologia,
imprime sua narrativa ousada, ao contar a história privada de
uma mulher pública, no conto "O Quinto Elemento".
Músico, escritor de uma vasta obra, reunida nos volumes
que compõem a Mitologia do Kaos, Jorge
Mautner escreve um conto loucamente poético, uma
fábula sobre os novos tempos, em "A Química da
Ressurreição".
O jornalista e escritor Pedro
Bial escreveu cinco livros, entre eles a biografia de Roberto
Marinho. Poeta-fundador dos "Camaleões", grupo formado nos
anos 80, dirigiu um longa sobre Guimarães Rosa e neste volume
publica seu primeiro conto.
Em Tarja Preta, a jornalista e
editora Isa Pessôa também estréia na
ficção com o conto "A Noite".