Freud encucava sobre onde as mulheres colocavam o desejo, o
Joaquim quer saber apenas onde elas vão colocar o
borogodó. Pois é. A palavra pode parecer antiga ao
ser sussurada assim, no ouvido da gata, mas acreditamos que a
moça da capa tenha. Aquele umbigo, aquele piercing
não serão estes alguns dos redemoinhos sensuais, onde o
borogodó se esconde?
O charme discreto das
meninas, que fofas, suas coxas, os quadris da mulher de 50
quem sabe neles encontraremos o borogodó perdido.
Insinuante, original, o texto de Joaquim Ferreira dos Santos persegue
esta qualidade intangível. Como quem teletransporta o sentido
das palavras, de um lado para outro, o repórter traça
uma impagável crônica de costumes, confessa
pânicos modernos e se assusta com o balé dos novos
ritos, quando as festas reúnem celebridades transformando-se
em bolhas de notícias e assim, pelo olhar atento,
também nos ajuda a compreender o que, nem sempre,
é autêntico borogodó.
Com um dos
textos mais brilhantes do jornalismo brasileiro, Joaquim Ferreira dos
Santos se consagrou como um cronista desses nossos tempos,
hipermodernos, inundados por celebridades, em que o repórter
transita fiel às suas mais divertidas idiossincrasias.
Neste volume estão reunidas algumas de suas
crônicas, implacavelmente reescritas, ele que se tornou
paradigma no gênero. Primeiro refogue seu assunto em azeite de
filosofia balsâmica, é o que explica, sugerindo ainda que
salpiquemos adjuntos adverbiais, pimenta branca e se amasse, com
faca, todos os vícios de linguagem.
Em busca do
borogodó perdido é exemplar nesta receita que
entende a alma do negócio. Cada palavra é medida,
as vírgulas se reviram, e enquanto o coração da
alcachofra cozinha a gente vai percebendo, sutilmente, onde afinal se
escondeu o borogodó - e porque precisamos sair correndo
atrás, ainda que seja tarde.
Nada de pânico,
é claro, porque borogodó se encontra com calma,
como quem mexe e remexe o caldo perfumado - da comida, da rua
molhada de chuva, da noite, da mulher. Houve um tempo em que
não se restavam dúvidas - mulher era mulher, homem
era homem e borogodó, borogodó. As coisas mudam.
Em sua busca proustiana, o repórter que nasceu no
subúrbio carioca recupera magias que o tempo apagou - mas
sem nostalgia, isso nunca, para Joaquim saudade é só
um pedacinho de confete.
Escritor e jornalista, Joaquim
Ferreira dos Santos nasceu no Rio de Janeiro. Trabalhou como
repórter, crítico de música e show na revista
Veja durante mais de 10 anos. Foi editor das revistas Domingo e
Programa, do Jornal do Brasil. Em 91 foi editor executivo do jornal O
Dia. Atualmente é cronista e colunista do jornal O Globo.
Joaquim é autor de três livros: "Feliz 1958 - o ano
que não devia acabar" e "O que as mulheres procuram na
bolsa" (Record), e "Antonio Maria" (Relume Dumará).