Romance de estréia do escritor carioca Alexandre
Raposo, um longínquo descendente do povo que por
séculos dominou os Andes. O livro é uma
fantástica aventura, criada a partir de uma das muitas teorias
sobre os contatos da América pré-colombiana com
outros povos e continentes.
NA TRILHA DOS INCAS
O jornalista
Alexandre Raposo conta como subiu e desceu os Andes para recriar
o passado pré-colombiano
por Edmundo
Barreiros
Há muitos séculos, quando os índios
brasileiros habitavam malocas de palha e grande parte da Europa
vivia em aldeias bárbaras, no alto da cordilheira dos Andes
começavam a florescer civilizações extremamente
desenvolvidas, que alcançaram o seu ápice com os
incas. Um império poderoso que, no século XVI, ia do
Chile ao sul da Colômbia. Cidades, estradas, técnicas
agrícolas avançadas... Os incas eram um povo criativo,
valente e empreendedor, mas que acabou massacrado pelos
conquistadores espanhóis comandados por Francisco Pizarro.
Esse universo inspirou o romance de estréia do
escritor carioca Alexandre Raposo, um longínquo
descendente do povo que por séculos dominou os Andes. O
autor criou uma aventura fantástica ambientada no maior
império da América pré-colombiana. "A
avó da minha mãe era de Iquitos. Me lembro que era
uma mulher com traços indígenas bem marcados. Era
muito brava e ralhava com a gente em quéchua. Minha
mãe me contava algumas histórias que aprendeu com
ela, em menina. Falava de Atahualpa, de como o Inca foi
traído por Pizarro", conta Raposo.
Talvez
impulsionado pelas distantes lembranças da infância, o
bem-sucedido jornalista largou tudo para se dedicar ao sonho de
escrever o seu primeiro romance. O ex-editor da sucursal carioca de
Playboy e, então, diretor de redação de
Ele Ela abandonou o emprego e, em 1991, com uma bolsa,
começou a pesquisa que resultaria em INCA: A SAGA DA
AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA. Mas Raposo
não iria se contentar em escrever essa aventura
inesquecível. Queria, também, vivenciá-la, o
que conseguiu com diversas viagens aos locais descritos em seu
livro, com direito a quase um mês na inóspita Ilha da
Páscoa.
O romance, que explora uma das muitas
teorias sobre os contatos da América pré-colombiana
com outros povos e continentes, tem como principal personagem o
Amauta Lloque Uiracocha, um nativo da Ilha da Páscoa que
é criado pelos incas e torna-se amigo e conselheiro dos seus
imperadores. Após a chegada dos espanhóis, ele
decide escrever suas memórias, relato fictício sobre o
qual se baseia a trama criada por Raposo.
Quando surgiu seu interesse pelas civilizações
pré-colombianas dos Andes?
Hoje em dia, o
público da América Latina conhece mais sobe o Egito
e a Grécia antigos, fatos que aconteceram há 4 mil
anos, e em outros continentes, do que sobre o seu próprio
passado. Além disso, lê livros como O senhor dos
anéis e assiste filmes como Guerra nas Estrelas
quando tem uma terra da fantasia bem perto dele, empoleirada no alto
de uma cordilheira com lagos transparentes, montanhas nevadas,
animais estranhos correndo por planícies marcianas, florestas
tropicais intocadas... Um mundo de maravilhas quase inexplorado que
não precisei inventar, descobri no quintal de casa.
Você visitou os lugares que menciona no livro?
Não existe um lugar no livro que eu não tenha
visitado. E isso foi fundamental para que eu pudesse manter a
verossimilhança do texto, criar o ambiente, o clima. Mas viajei,
também, atrás de livros e documentos
históricos. Mas só encontrei bons livros sobre o
assunto em Santiago do Chile, cidade que tem sebos excelentes.
Também nossos primos do lado de lá andam
esquecidos e envergonhados de seu passado
pré-histórico...
Como assim?
O próprio Vargas Llosa diz que nunca escreveu sobre o
passado pré-colombiano porque acha tudo muito cruel e
sanguinário. De certa forma, tem aversão ao tema. A
verdade é que o peruano tem uma relação
ambígua com a sua herança indígena. Sente-se
orgulhoso por um lado e envergonhado por outro. O longo tempo de
dominação espanhola incutiu no povo a idéia de
que o indígena é inferior. Por isso, são quase
todos "brancos por autodefinição". Muitos
só descobrem que são mestiços quando saem do
país e vão estudar no exterior, onde invariavelmente
são classificados como "nativos americanos".
Lloque Uiracocha, o personagem principal, migrou da Ilha da
Páscoa para o Peru. Você acredita realmente que houve
um contato entre essas duas culturas no passado?
É muito provável. Existe um grande circuito de
civilizações megalíticas com
características muito semelhantes, que abrange toda a
América Andina e o Pacífico Sul. Há
estátuas de pedra em Tiahuanaco muito parecidas com as
encontradas em Pitcairn e na Ilha da Páscoa. Essas são
as evidências mais gritantes, mas eu poderia enumerar uma
centena de outras...
Você fala da conquista
espanhola rapidamente. O assunto não te interessa tanto?
É um assunto já bastante explorado. Por isso
centrei fogo no passado pré-colombiano.
A
ficção é uma maneira de estimular o interesse
pela história?
Sim, e a idéia não
é nova. Fiz o mesmo que Monteiro Lobato, quando escreveu
Os 12 trabalhos de Hércules e O Minotauro, ou
seja: pegar um assunto cabeludo – no caso dele a mitologia grega,
que tem incesto, homossexualismo, violência desbragada, sexo,
drogas e rock and roll – e contar isso para crianças, de
uma forma assimilável. A diferença é que
não escrevo para crianças, mas para o grande
público. Mas é sempre bom deixar claro que não
tive a intenção de fazer um ensaio histórico. Fiz
apenas uma pesquisa minuciosa para contar uma mentira bem
contada.
O que você fazia antes de tornar-se
escritor?
Comecei cedo no jornalismo e rapidamente
galguei os cargos que queria. Desde 12, 13 anos, sonhava em editar
revistas masculinas. Consegui. Fui editor da sucursal de Playboy
no Rio e, depois, diretor executivo de Ele Ela.
Por que desistiu da carreira de seus sonhos?
Já tinha feito tudo o que eu queria fazer em revista e
resolvi escrever coisas um pouco mais úteis e duráveis
do que relatos eróticos e matérias de serviço
para homens solteiros. Pensei em vários projetos de
ficção e acabei caindo nessa saga
pré-colombiana.
Quanto tempo você
precisou para terminar o romance?
Quatro anos. O
período inicial foi de viagens e pesquisa. Recolhi material em
entrevistas com antropólogos e historiadores. Fiz uma viagem
antes de começar a escrever. Mas tive que viajar de novo para
encontrar o que faltava. Ao voltar, via que estava tudo errado e
começava de novo. Ainda fiz uma terceira viagem. E um
terceiro original. Quando comecei o livro, em 1990, não tinha a
menor idéia do trabalho que ia dar nem o pouco que sabia
sobre o assunto. Quanto mais a gente é ignorante, mais pensa
que sabe tudo.
Como você conseguiu financiar
esse projeto, já que tinha deixado o emprego na revista?
Tive patrocínio da antiga Fundação Luiz
Estevão, de Brasília. Uma bolsa para escrever o livro. Eu
fiz o orçamento do projeto e, pretensioso como era, achei que
terminaria em muito menos tempo. Estourei o orçamento. No
final, acabei por minha conta. Mas as viagens estavam garantidas. Fui
do Chile ao Equador, com direito a quase um mês na remota Ilha
da Páscoa.
Quanto tempo duravam essas
viagens?
Eram viagens demoradas, de cerca de dois
meses initerruptos. O problema não era a grana, era o
cansaço mesmo. Fui a lugares muito difíceis de se viver,
como a Ilha da Páscoa, o deserto de Atacama, a
Amazônia... Momentos incríveis mas muito desgastantes.
Qual foi o lugar mais impressionante que visitou?
Fui a lugares extraordinários. Adorei a Ilha da
Páscoa, o lugar habitado mais distante de qualquer outro lugar
habitado no planeta Terra. Até recentemente só se
chegava lá de navio. A ilha é linda, mas é um
local muito ermo. Já a água do mar é a mais
limpa do mundo, bem no meio do Oceano Pacífico...
Quanto tempo você ficou lá?
Uns
vinte e poucos dias. No final já estava ajudando o pessoal a
receber os turistas no aeroporto. Saí várias vezes com
os moradores da ilha para pescar atum. Passávamos o dia
inteiro no mar. Um dia, na hora de voltar, o motor não pegou.
Não tínhamos remos, nem mesmo uma maldita
bússola. Uma situação desesperadora. O
pescador desmontou e montou o motor. Sobraram algumas
peças do lado de fora mas, ao fim de muita reza, o motor
acabou funcionando. A nossa sorte é que o sol se punha
tarde naquela época do ano, por volta das nove horas. Se
escurecesse antes de termos contato visual com a ilha, talvez
não conseguíssemos voltar.