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Inca
A saga da América pré-colombiana (veja entrevista)
Alexandre Raposo
Romance   352 páginas
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 8501047856

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Romance de estréia do escritor carioca Alexandre Raposo, um longínquo descendente do povo que por séculos dominou os Andes. O livro é uma fantástica aventura, criada a partir de uma das muitas teorias sobre os contatos da América pré-colombiana com outros povos e continentes.



NA TRILHA DOS INCAS

O jornalista Alexandre Raposo conta como subiu e desceu os Andes para recriar o passado pré-colombiano

por Edmundo Barreiros

Alexandre Raposo

Há muitos séculos, quando os índios brasileiros habitavam malocas de palha e grande parte da Europa vivia em aldeias bárbaras, no alto da cordilheira dos Andes começavam a florescer civilizações extremamente desenvolvidas, que alcançaram o seu ápice com os incas. Um império poderoso que, no século XVI, ia do Chile ao sul da Colômbia. Cidades, estradas, técnicas agrícolas avançadas... Os incas eram um povo criativo, valente e empreendedor, mas que acabou massacrado pelos conquistadores espanhóis comandados por Francisco Pizarro.

Esse universo inspirou o romance de estréia do escritor carioca Alexandre Raposo, um longínquo descendente do povo que por séculos dominou os Andes. O autor criou uma aventura fantástica ambientada no maior império da América pré-colombiana. "A avó da minha mãe era de Iquitos. Me lembro que era uma mulher com traços indígenas bem marcados. Era muito brava e ralhava com a gente em quéchua. Minha mãe me contava algumas histórias que aprendeu com ela, em menina. Falava de Atahualpa, de como o Inca foi traído por Pizarro", conta Raposo.

Talvez impulsionado pelas distantes lembranças da infância, o bem-sucedido jornalista largou tudo para se dedicar ao sonho de escrever o seu primeiro romance. O ex-editor da sucursal carioca de Playboy e, então, diretor de redação de Ele Ela abandonou o emprego e, em 1991, com uma bolsa, começou a pesquisa que resultaria em INCA: A SAGA DA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA. Mas Raposo não iria se contentar em escrever essa aventura inesquecível. Queria, também, vivenciá-la, o que conseguiu com diversas viagens aos locais descritos em seu livro, com direito a quase um mês na inóspita Ilha da Páscoa.

O romance, que explora uma das muitas teorias sobre os contatos da América pré-colombiana com outros povos e continentes, tem como principal personagem o Amauta Lloque Uiracocha, um nativo da Ilha da Páscoa que é criado pelos incas e torna-se amigo e conselheiro dos seus imperadores. Após a chegada dos espanhóis, ele decide escrever suas memórias, relato fictício sobre o qual se baseia a trama criada por Raposo.

Quando surgiu seu interesse pelas civilizações pré-colombianas dos Andes?

Hoje em dia, o público da América Latina conhece mais sobe o Egito e a Grécia antigos, fatos que aconteceram há 4 mil anos, e em outros continentes, do que sobre o seu próprio passado. Além disso, lê livros como O senhor dos anéis e assiste filmes como Guerra nas Estrelas quando tem uma terra da fantasia bem perto dele, empoleirada no alto de uma cordilheira com lagos transparentes, montanhas nevadas, animais estranhos correndo por planícies marcianas, florestas tropicais intocadas... Um mundo de maravilhas quase inexplorado que não precisei inventar, descobri no quintal de casa.

Você visitou os lugares que menciona no livro?

Não existe um lugar no livro que eu não tenha visitado. E isso foi fundamental para que eu pudesse manter a verossimilhança do texto, criar o ambiente, o clima. Mas viajei, também, atrás de livros e documentos históricos. Mas só encontrei bons livros sobre o assunto em Santiago do Chile, cidade que tem sebos excelentes. Também nossos primos do lado de lá andam esquecidos e envergonhados de seu passado pré-histórico...

Como assim?

O próprio Vargas Llosa diz que nunca escreveu sobre o passado pré-colombiano porque acha tudo muito cruel e sanguinário. De certa forma, tem aversão ao tema. A verdade é que o peruano tem uma relação ambígua com a sua herança indígena. Sente-se orgulhoso por um lado e envergonhado por outro. O longo tempo de dominação espanhola incutiu no povo a idéia de que o indígena é inferior. Por isso, são quase todos "brancos por autodefinição". Muitos só descobrem que são mestiços quando saem do país e vão estudar no exterior, onde invariavelmente são classificados como "nativos americanos".

Lloque Uiracocha, o personagem principal, migrou da Ilha da Páscoa para o Peru. Você acredita realmente que houve um contato entre essas duas culturas no passado?

É muito provável. Existe um grande circuito de civilizações megalíticas com características muito semelhantes, que abrange toda a América Andina e o Pacífico Sul. Há estátuas de pedra em Tiahuanaco muito parecidas com as encontradas em Pitcairn e na Ilha da Páscoa. Essas são as evidências mais gritantes, mas eu poderia enumerar uma centena de outras...

Você fala da conquista espanhola rapidamente. O assunto não te interessa tanto?

É um assunto já bastante explorado. Por isso centrei fogo no passado pré-colombiano.

A ficção é uma maneira de estimular o interesse pela história?

Sim, e a idéia não é nova. Fiz o mesmo que Monteiro Lobato, quando escreveu Os 12 trabalhos de Hércules e O Minotauro, ou seja: pegar um assunto cabeludo – no caso dele a mitologia grega, que tem incesto, homossexualismo, violência desbragada, sexo, drogas e rock and roll – e contar isso para crianças, de uma forma assimilável. A diferença é que não escrevo para crianças, mas para o grande público. Mas é sempre bom deixar claro que não tive a intenção de fazer um ensaio histórico. Fiz apenas uma pesquisa minuciosa para contar uma mentira bem contada.

O que você fazia antes de tornar-se escritor?

Comecei cedo no jornalismo e rapidamente galguei os cargos que queria. Desde 12, 13 anos, sonhava em editar revistas masculinas. Consegui. Fui editor da sucursal de Playboy no Rio e, depois, diretor executivo de Ele Ela.

Por que desistiu da carreira de seus sonhos?

Já tinha feito tudo o que eu queria fazer em revista e resolvi escrever coisas um pouco mais úteis e duráveis do que relatos eróticos e matérias de serviço para homens solteiros. Pensei em vários projetos de ficção e acabei caindo nessa saga pré-colombiana.

Quanto tempo você precisou para terminar o romance?

Quatro anos. O período inicial foi de viagens e pesquisa. Recolhi material em entrevistas com antropólogos e historiadores. Fiz uma viagem antes de começar a escrever. Mas tive que viajar de novo para encontrar o que faltava. Ao voltar, via que estava tudo errado e começava de novo. Ainda fiz uma terceira viagem. E um terceiro original. Quando comecei o livro, em 1990, não tinha a menor idéia do trabalho que ia dar nem o pouco que sabia sobre o assunto. Quanto mais a gente é ignorante, mais pensa que sabe tudo.

Como você conseguiu financiar esse projeto, já que tinha deixado o emprego na revista?

Tive patrocínio da antiga Fundação Luiz Estevão, de Brasília. Uma bolsa para escrever o livro. Eu fiz o orçamento do projeto e, pretensioso como era, achei que terminaria em muito menos tempo. Estourei o orçamento. No final, acabei por minha conta. Mas as viagens estavam garantidas. Fui do Chile ao Equador, com direito a quase um mês na remota Ilha da Páscoa.

Quanto tempo duravam essas viagens?

Eram viagens demoradas, de cerca de dois meses initerruptos. O problema não era a grana, era o cansaço mesmo. Fui a lugares muito difíceis de se viver, como a Ilha da Páscoa, o deserto de Atacama, a Amazônia... Momentos incríveis mas muito desgastantes.

Qual foi o lugar mais impressionante que visitou?

Fui a lugares extraordinários. Adorei a Ilha da Páscoa, o lugar habitado mais distante de qualquer outro lugar habitado no planeta Terra. Até recentemente só se chegava lá de navio. A ilha é linda, mas é um local muito ermo. Já a água do mar é a mais limpa do mundo, bem no meio do Oceano Pacífico...

Quanto tempo você ficou lá?

Uns vinte e poucos dias. No final já estava ajudando o pessoal a receber os turistas no aeroporto. Saí várias vezes com os moradores da ilha para pescar atum. Passávamos o dia inteiro no mar. Um dia, na hora de voltar, o motor não pegou. Não tínhamos remos, nem mesmo uma maldita bússola. Uma situação desesperadora. O pescador desmontou e montou o motor. Sobraram algumas peças do lado de fora mas, ao fim de muita reza, o motor acabou funcionando. A nossa sorte é que o sol se punha tarde naquela época do ano, por volta das nove horas. Se escurecesse antes de termos contato visual com a ilha, talvez não conseguíssemos voltar.




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