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A Falta
(veja entrevista)
Lúcia Castello Branco
Contos   112 páginas
Formato: 14 x 21cm
ISBN: 8501048453

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Mãe e filha são as protagonistas da narrativa refinada que se apresenta sob a forma aparente de contos. Mas a autora não cai na armadilha dos gêneros literários. No conjunto, os contos constituem variações sobre um mesmo tema, descontinuidades harmônicas, dentro da melhor dicção contemporânea. Lúcia Castello Branco é professora de Literatura Comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.É também autora de A traição de Penélope.


Lúcia Castello Branco

PARAÍSO PERDIDO
A ensaísta Lucia Castello Branco estréia na ficção focalizando o
difícil relacionamento entre mães e filhas

Por Ana Paula Costa

Para Lucia Castello Branco, perda se transforma em literatura. É no mundo

da prosa refinada e linguagem trabalhada que ela encontra sua rendição. "Esse livro parte de uma experiência particular, que não é só minha experiência com minha mãe, mas a minha de experiência de linguagem, com a linguagem."

Carioca, radicada há 20 anos em Minas Gerais, Lucia aborda em A falta o difícil relacionamento entre mães e filhas. Esse tema, contudo, não é novidade na obra da autora. Desde o livro A mulher escrita, de 1989, Lucia se debruça sobre o universo feminino, principalmente o literário. A falta não é um romance no sentido prosaico do termo. Nem um livro de contos. Embora, aparentemente, se apresente nesta fórmula literária, o livro é composto por fragmentos, que no conjunto constituem variações sobre um mesmo tema, descontinuidades harmônicas, dentro da melhor dicção contemporânea. Segundo a crítica Lúcia Helena Viana, autora do texto de orelha , o livro é composto de "fragmentos da memória e exercícios de invenção - 'discretas infidelidades ao vivido'. Cenas de um script que fala das formas do amor e de amar".

Lucia Castello Branco é professora de Literatura Comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Dentre outros livros, publicou, na área de ensaios, O que é erotismo e As traições de Penélope. Tem dois livros de literatura infantil publicados: Júlia-Toda-Azul e O fazedor de palavras. Nesta entrevista, ela revela como foi a transição da pesquisadora para a ensaísta e os próximos projetos.

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Dos ensaios para o romance. Como foi esta transição? O trabalho de ficção é mais difícil?

O trabalho de ficção, sem dúvida, é mais difícil. No ensaio, de alguma maneira, você está cercado: cercado por um objeto de pesquisa, por influências teóricas etc. Por mais que você se exponha num ensaio - e essa exposição sempre ocorre de alguma forma -, há uma certa moldura teórica servindo como defesa. Na ficção é diferente: o sujeito está ali mais exposto, mais destituído de anteparos. Por outro lado, se o que você escreve é apenas uma exposição do sujeito, o que se tem ali é uma confissão, um relato - e não uma ficção. A medida exata entre o real da coisa (vivida ou imaginada) e a escritura da coisa não é nada simples e é isso, a meu ver, o que sustenta o texto ficcional.

Por que a escolha do relacionamento entre mães e filhas, principalmente da perda, como tema?

O tema do feminino já vem sendo abordado por mim há alguns anos. Primeiro em um livro de ensaios, que fiz em co-autoria com a Ruth Silviano Brandão, A mulher escrita (1989), depois em O que é escrita feminina (1991) e, mais recentemente, em As traições de Penélope (1995), em que trabalho com obras de várias escritoras que reaparecem neste romance como personagens. Então acho que posso dizer que esse tema me ocupa, ou sou ocupada por ele, não é? Em A falta a questão se circunscreve, como você observa, à perda da mãe, que é também a perda de um certo universo, imaginariamente paradisíaco, sem palavras. Mas, como um romance se faz de palavras, só me resta descrever esse universo como perdido (como qualquer paraíso, aliás).

Em alguns momentos, dá para perceber um forte tom de amargura no texto, o livro partiu de uma experiência particular?

Não sei se o tom mais forte é de amargura, ou de melancolia. A melancolia - esse "sol negro", como a define Júlia Kristina - é o tom que perpassa todo o livro, sendo, inclusive, nome de uma de suas personagens. Aliás, originalmente o livro se intitularia Melancolia.

Fui convencida por alguns amigos - dentre eles, Manoel de Barros, que me dizia ser esta uma palavra "acostumada" - que o nome não era bom como título. Aceitei a crítica, embora continue gostando da sonoridade do nome melancolia e das sugestões evocadas por ele. A melancolia é o apego à "coisa finda". E esse livro vai falar exatamente do apego à coisa finda: uma filha que busca em vão a mãe abandônica, uma mãe que não a reconhece, que jamais a nomeia como filha, um momento antes, aquém da linguagem, em que mãe e filha eram supostamente uma só, um só corpo. Nesse sentido, esse livro parte de uma experiência particular, que não é só a minha experiência com minha mãe, mas a minha experiência de linguagem, com a linguagem. Digamos que é sempre difícil essa travessia para a linguagem, mas que, apara alguns, ela é particularmente difícil... Esse livro quer falar disso, dessa dificuldade. Mas ele termina em um impasse: como dizer dessa experiência que, por si mesma, escapa à linguagem? Digamos que esse livro quis escrever o real (não no sentido de realidade, mas no sentido psicanalítico, do que escapa ao simbólico), mas termina por concluir, em seu ultimo fragmento, que "aquilo que as palavras não cobriram, mesmo que exista, não se reproduz".

Algumas personagens do livro, como Sarah, do conto Sarah entre os panos, são muito fortes. Mulheres tem personalidade mais forte do que homens?

Os fragmentos "Sarah entre os panos" retrata , de fato, uma personagem muito forte que, na verdade, é inspirada em uma das muitas mulheres fortes que atravessaram meu caminho. Sarah, além, é luminosa, solar, não como o sol negro da melancolia, mas como um sol matutino (talvez o único no livro) a iluminar, com sua alegria e sobretudo seu humor, a própria morte. Não se trata de afirmar que as mulheres são mais fortes que os homens, mas de focalizar, em detalhes, a peculiariedade da força feminina que, às vezes (como no caso de Sarah), pode residir em cortes de tecido, ou num par de brincos.

O complexo de Electra é uma realidade no relacionamento entre mães e filhas?

Não posso te dizer sobre o complexo de Electra, mas com relação ao complexo de Édipo posso dizer, com Freud, que ele percorre um trajeto mais sinuoso nas mulheres que nos homens. Digamos que esse livro, em parte, se escreve nas sinuosidades desse trajeto.

Quais são suas influências literárias?

Algumas das mulheres escritoras do livro, que fazem parte do trecho "As assinaladas", estão entre essas influências: Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol são autoras que marcaram minhas experiências de leitora e, certamente, minhs experiências como escritora. Mas não creio que meu texto se escreva numa dicção semelhante a dessas escritoras, embora os temas, os afetos e a melancolia sejam da mesma espécie.

Em A mulher escrita, você fala de um "texto feminino", que busca a língua matriz, um código que expressa sentimentos e coisas abstratas. As pesquisas para este livro influenciaram a linguagem de A falta?

Creio que minhas pesquisas sobre o feminino influenciaram a linguagem e as questões que atravessam o texto de A falta, mas tendo a crer também que o caminho inverso se deu: foram antes as experiências (vividas ou literárias) do feminino que influenciaram minhas pesquisas teóricas.

Os contos têm como cenário cidades diferentes. É uma forma de tornar o livro universal?

Sim, mas também é uma forma de abordar as particularidades: as cidades que funcionam como cenário dos textos são cidades em que vivi (como Rio ou Lisboa) ou em que vivi experiências muito fortes de perda de uma certa referência (que hoje eu chamaria de referência lingüística), São Paulo ou Paris.

Como é uma carioca vivendo há mais de 20 anos em Minas?

É uma carioca já mais amineirada, mais caseira, mais recatada... Mas a saudade do mar permanece, como uma nostalgia.

A pesquisadora dará lugar a ficcionista?

A ficcionista, como assinala a Lúcia Helena Viana na orelha do livro, sempre esteve aí, ao lado da pesquisadora. Espero que ambas tenham lugar em mim, daqui pra frente. Embora a ficcionista me fascine mais, não creio que a pesquisadora esteja disposta a me abandonar, já que a pesquisa faz parte da minha vida há 20 anos, determinando mesmo o meu olhar sobre as coisas, o mundo.

Quais são seus projetos futuros?

Ainda este mês, estarei lançando um outro livro de literatura infantil: Desiderare - pela RHJ, de Belo Horizonte. É o meu terceiro livro de literatura infantil. No momento, estou escrevendo outros dois de literatura infantil e iniciando um projeto, ainda meio embrionário, de uma outra novela. Também estarei publicando, ainda em 97, um outro livro de ensaios. este não é só meu, mas foi organizado por mim e reúne ensaios, textos poéticos e fotografias de vários autores. Chama-se Coisa de louco e discute os limites entre o poético e o psicótico. Faremos uma edição bonita, espero, já que o livro será patrocinado por empresas a partir de seu enquadramento na "Lei do Incentivo Cultural", da Prefeitura de Belo Horizonte. Como você vê, a ficcionista e a pesquisadora continuam convivendo.

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