Mãe e filha são as protagonistas da narrativa refinada que
se apresenta sob a forma aparente de contos. Mas a autora não
cai na armadilha dos gêneros literários. No conjunto, os
contos constituem variações sobre um mesmo tema,
descontinuidades harmônicas, dentro da melhor
dicção contemporânea. Lúcia Castello
Branco é professora de Literatura Comparada na Faculdade
de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.É
também autora de
A traição de
Penélope.
PARAÍSO PERDIDO
A ensaísta
Lucia Castello Branco estréia na ficção
focalizando o
difícil relacionamento entre mães e
filhas Por Ana Paula Costa
Para Lucia Castello Branco, perda se transforma em literatura.
É no mundo
da prosa refinada e linguagem trabalhada
que ela encontra sua rendição. "Esse livro parte de
uma experiência particular, que não é só
minha experiência com minha mãe, mas a minha de
experiência de linguagem, com a linguagem."
Carioca,
radicada há 20 anos em Minas Gerais, Lucia aborda em A
falta o difícil relacionamento entre mães e
filhas. Esse tema, contudo, não é novidade na obra da
autora. Desde o livro A mulher escrita, de 1989, Lucia se
debruça sobre o universo feminino, principalmente o
literário. A falta não é um romance no
sentido prosaico do termo. Nem um livro de contos. Embora,
aparentemente, se apresente nesta fórmula literária, o
livro é composto por fragmentos, que no conjunto constituem
variações sobre um mesmo tema, descontinuidades
harmônicas, dentro da melhor dicção
contemporânea. Segundo a crítica Lúcia Helena
Viana, autora do texto de orelha , o livro é composto de
"fragmentos da memória e exercícios de
invenção - 'discretas infidelidades ao vivido'. Cenas de
um script que fala das formas do amor e de amar".
Lucia Castello Branco é professora de Literatura Comparada
na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
Dentre outros livros, publicou, na área de ensaios, O que
é erotismo e As traições de
Penélope. Tem dois livros de literatura infantil publicados:
Júlia-Toda-Azul e O fazedor de palavras. Nesta
entrevista, ela revela como foi a transição da
pesquisadora para a ensaísta e os próximos projetos.
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Dos ensaios
para o romance. Como foi esta transição? O trabalho de
ficção é mais difícil?
O trabalho
de ficção, sem dúvida, é mais
difícil. No ensaio, de alguma maneira, você está
cercado: cercado por um objeto de pesquisa, por influências
teóricas etc. Por mais que você se exponha num ensaio
- e essa exposição sempre ocorre de alguma forma -,
há uma certa moldura teórica servindo como defesa.
Na ficção é diferente: o sujeito está ali
mais exposto, mais destituído de anteparos. Por outro lado, se
o que você escreve é apenas uma
exposição do sujeito, o que se tem ali é uma
confissão, um relato - e não uma ficção. A
medida exata entre o real da coisa (vivida ou imaginada) e a escritura
da coisa não é nada simples e é isso, a meu ver,
o que sustenta o texto ficcional.
Por que a escolha do
relacionamento entre mães e filhas, principalmente da perda,
como tema?
O tema do feminino já vem sendo
abordado por mim há alguns anos. Primeiro em um livro de
ensaios, que fiz em co-autoria com a Ruth Silviano Brandão,
A mulher escrita (1989), depois em O que é escrita
feminina (1991) e, mais recentemente, em As
traições de Penélope (1995), em que trabalho
com obras de várias escritoras que reaparecem neste
romance como personagens. Então acho que posso dizer que
esse tema me ocupa, ou sou ocupada por ele, não é?
Em A falta a questão se circunscreve, como você
observa, à perda da mãe, que é também
a perda de um certo universo, imaginariamente paradisíaco,
sem palavras. Mas, como um romance se faz de palavras, só
me resta descrever esse universo como perdido (como qualquer
paraíso, aliás).
Em alguns momentos,
dá para perceber um forte tom de amargura no texto, o livro
partiu de uma experiência particular?
Não sei se
o tom mais forte é de amargura, ou de melancolia. A
melancolia - esse "sol negro", como a define Júlia
Kristina - é o tom que perpassa todo o livro, sendo, inclusive,
nome de uma de suas personagens. Aliás, originalmente o livro
se intitularia Melancolia.
Fui convencida por alguns
amigos - dentre eles, Manoel de Barros, que me dizia ser esta uma
palavra "acostumada" - que o nome não era bom
como título. Aceitei a crítica, embora continue
gostando da sonoridade do nome melancolia e das sugestões
evocadas por ele. A melancolia é o apego à
"coisa finda". E esse livro vai falar exatamente do apego
à coisa finda: uma filha que busca em vão a mãe
abandônica, uma mãe que não a reconhece, que
jamais a nomeia como filha, um momento antes, aquém da
linguagem, em que mãe e filha eram supostamente uma
só, um só corpo. Nesse sentido, esse livro parte de
uma experiência particular, que não é só a
minha experiência com minha mãe, mas a minha
experiência de linguagem, com a linguagem. Digamos que
é sempre difícil essa travessia para a linguagem, mas
que, apara alguns, ela é particularmente difícil... Esse
livro quer falar disso, dessa dificuldade. Mas ele termina em um
impasse: como dizer dessa experiência que, por si mesma,
escapa à linguagem? Digamos que esse livro quis escrever o
real (não no sentido de realidade, mas no sentido
psicanalítico, do que escapa ao simbólico), mas
termina por concluir, em seu ultimo fragmento, que "aquilo que
as palavras não cobriram, mesmo que exista, não se
reproduz".
Algumas personagens do livro, como Sarah,
do conto Sarah entre os panos, são muito fortes.
Mulheres tem personalidade mais forte do que homens?
Os
fragmentos "Sarah entre os panos" retrata , de fato, uma
personagem muito forte que, na verdade, é inspirada em uma
das muitas mulheres fortes que atravessaram meu caminho. Sarah,
além, é luminosa, solar, não como o sol negro da
melancolia, mas como um sol matutino (talvez o único no livro)
a iluminar, com sua alegria e sobretudo seu humor, a própria
morte. Não se trata de afirmar que as mulheres são mais
fortes que os homens, mas de focalizar, em detalhes, a peculiariedade
da força feminina que, às vezes (como no caso de
Sarah), pode residir em cortes de tecido, ou num par de brincos.
O complexo de Electra é uma realidade no
relacionamento entre mães e filhas?
Não posso
te dizer sobre o complexo de Electra, mas com relação ao
complexo de Édipo posso dizer, com Freud, que ele percorre
um trajeto mais sinuoso nas mulheres que nos homens. Digamos que
esse livro, em parte, se escreve nas sinuosidades desse trajeto.
Quais são suas influências literárias?
Algumas das mulheres escritoras do livro, que fazem parte do
trecho "As assinaladas", estão entre essas
influências: Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol são
autoras que marcaram minhas experiências de leitora e,
certamente, minhs experiências como escritora. Mas não
creio que meu texto se escreva numa dicção semelhante
a dessas escritoras, embora os temas, os afetos e a melancolia sejam
da mesma espécie.
Em A mulher
escrita, você fala de um "texto feminino", que
busca a língua matriz, um código que expressa
sentimentos e coisas abstratas. As pesquisas para este livro
influenciaram a linguagem de A falta?
Creio que
minhas pesquisas sobre o feminino influenciaram a linguagem e as
questões que atravessam o texto de A falta, mas tendo a
crer também que o caminho inverso se deu: foram antes as
experiências (vividas ou literárias) do feminino que
influenciaram minhas pesquisas teóricas.
Os
contos têm como cenário cidades diferentes. É
uma forma de tornar o livro universal?
Sim, mas
também é uma forma de abordar as particularidades:
as cidades que funcionam como cenário dos textos são
cidades em que vivi (como Rio ou Lisboa) ou em que vivi
experiências muito fortes de perda de uma certa referência
(que hoje eu chamaria de referência lingüística),
São Paulo ou Paris.
Como é uma carioca
vivendo há mais de 20 anos em Minas?
É
uma carioca já mais amineirada, mais caseira, mais recatada...
Mas a saudade do mar permanece, como uma nostalgia.
A pesquisadora dará lugar a ficcionista?
A
ficcionista, como assinala a Lúcia Helena Viana na orelha do
livro, sempre esteve aí, ao lado da pesquisadora. Espero que
ambas tenham lugar em mim, daqui pra frente. Embora a ficcionista me
fascine mais, não creio que a pesquisadora esteja disposta a me
abandonar, já que a pesquisa faz parte da minha vida
há 20 anos, determinando mesmo o meu olhar sobre as
coisas, o mundo.
Quais são seus projetos
futuros?
Ainda este mês, estarei lançando um
outro livro de literatura infantil: Desiderare - pela RHJ, de Belo
Horizonte. É o meu terceiro livro de literatura infantil. No
momento, estou escrevendo outros dois de literatura infantil e
iniciando um projeto, ainda meio embrionário, de uma outra
novela. Também estarei publicando, ainda em 97, um outro
livro de ensaios. este não é só meu, mas foi
organizado por mim e reúne ensaios, textos poéticos e
fotografias de vários autores. Chama-se Coisa de louco
e discute os limites entre o poético e o psicótico.
Faremos uma edição bonita, espero, já que o livro
será patrocinado por empresas a partir de seu enquadramento
na "Lei do Incentivo Cultural", da Prefeitura de Belo
Horizonte. Como você vê, a ficcionista e a pesquisadora
continuam convivendo.
Liberado para
reprodução, no todo ou em parte, com os devidos
créditos