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Salim, O Mágico
Malba Tahan
Romance   490 páginas
ISBN: 8501050946

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Os leitores de Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, acostumaram-se com o seu mundo de mistérios e emoção — habitado por odaliscas, xeiques e beduínos — que, em meio à fantasia, ensinou gerações a aprender matemática. Mas quem poderia imaginar que Malba Tahan, em plena ditadura militar, tenha escrito um livro que, na forma de uma fábula adulta, criticava duramente a políticos famosos, generais de pijama e ao próprio governo?

Escrever Salim, o mágico foi um gesto de coragem. Na década de 1970, quando a liberdade de expressão fora banida deste país, Malba Tahan, publicou as histórias de um modesto cordoeiro de Damasco que, devido ao mais puro acaso, transforma-se num famoso mágico, durante o reinado de um glorioso califa.

O romance oriental sírio-libanês seria mais uma das fantásticas histórias juvenis do mestre se a intenção do corajoso professor não fosse denunciar a corrupção, "o jeitinho brasileiro", as benesses e as manobras dos nossos políticos.

Nos títulos dos capítulos, a crítica é incisiva: "A nossa polícia não dorme", "As façanhas de Lacerta", "O capitão e os generais reformados", "O camelo de chapa branca" ou "O capitão fala dos esquerdistas". Os personagens — generais de pijama, chefes de polícia, políticos, presidentes — são facilmente reconhecíveis:

Lacerta desejava apoderar-se do governo de El-Raslib. Interessava-o o poder. Que fez então? Sendo muito jovem, orador brilhante e escritor imaginoso e fluente [...] armou Lacerta uma intriga tão grave e aviltante contra o xeique Etchag que este, desesperado, abandonado pelos amigos, pelos parentes e até pelos militares, viu-se obrigado a deixar o cargo de governador. E como era um homem brioso, de boa fibra moral, não suportou o vexame da derrota política e praticou o suicídio."

Outro personagem era "um gramático de certo prestígio chamado Moslaha Djehnem, apelidado Hakma, também chamado o Vassoura, homem magro, de voz esganiçada. A princípio, tudo correu bem. O povo confiava na capacidade de Hakma e julgava-o, por sua viva sensibilidade e firmeza, capaz de salvar o país dos contrabandistas, liquidar com os falsários e exilar os xeiques corruptos. (...) Fui um dos muitos que acreditaram nele. Confesso, agora profundamente envergonhado.

Para descrever a corrupção da época, Malba Tahan não mede as palavras e suas descrições continuam extremamente atuais:

"Sabemos, por outro lado, de austeros e circunspectos muçulmanos que ingressam num cargo público (de salário modesto) e deixam esse cargo, no fim de algum tempo, ricos, principescamente ricos. Citarei, apenas, dois exemplos: o governador Al-Demar Ben Lick, do Hedjaz, e o general Torak Hanifa, que foi prefeito em Alepo. Estão ambos riquíssimos.

Para os generais, as críticas mais irônicas:

— E o senhor não acha excessivo, para o nosso país, esse número fabuloso de generais reformados, de almirantes e coronéis inativos? — arriscou, muito tímido, na sua ingenuidade, o cordoeiro Salim.

  • De forma alguma — contestou, com veemência, o capitão numa labareda de entusiasmo — De forma alguma. Precisamos triplicar ou quintuplicar esse número. Sim, disse bem: quintuplicar!

Júlio César de Mello e Souza — o escritor Malba Tahan — nasceu no dia 6 de maio de 1895. Natural do Rio de Janeiro, passou a infância em Queluz, cidade do interior de São Paulo. Formou-se em engenharia na Escola Politécnica. Foi, por mais de sessenta anos, professor. Deu aulas de História, Geografia, Física, mas foi a temida Matemática que lhe trouxe fama e prestígio.

O pseudônimo surgiu com a união do nome de um oásis do Iêmen, Malba, com o sobrenome de uma aluna, Tahan que significa moleiro. Estudioso da cultura islâmica, ele era profundo conhecedor dos textos do Alcorão e das histórias do povo árabe. Morreu com 79 anos, no dia 18 de junho de 1974, no hotel Boa Viagem, em Recife, depois de uma palestra para normalistas sobre a arte de contar histórias.




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