Os leitores de Júlio César de Mello e Souza, o
Malba Tahan, acostumaram-se com o seu mundo de mistérios
e emoção — habitado por odaliscas, xeiques e
beduínos — que, em meio à fantasia, ensinou
gerações a aprender matemática. Mas quem
poderia imaginar que Malba Tahan, em plena ditadura militar, tenha
escrito um livro que, na forma de uma fábula adulta, criticava
duramente a políticos famosos, generais de pijama e ao
próprio governo?
Escrever Salim, o
mágico foi um gesto de coragem. Na década de
1970, quando a liberdade de expressão fora banida deste
país, Malba Tahan, publicou as histórias de um
modesto cordoeiro de Damasco que, devido ao mais puro acaso,
transforma-se num famoso mágico, durante o reinado de um
glorioso califa.
O romance oriental sírio-libanês
seria mais uma das fantásticas histórias juvenis do
mestre se a intenção do corajoso professor não
fosse denunciar a corrupção, "o jeitinho
brasileiro", as benesses e as manobras dos nossos
políticos.
Nos títulos dos capítulos, a
crítica é incisiva: "A nossa polícia
não dorme", "As façanhas de Lacerta",
"O capitão e os generais reformados", "O
camelo de chapa branca" ou "O capitão fala dos
esquerdistas". Os personagens — generais de pijama, chefes de
polícia, políticos, presidentes — são facilmente
reconhecíveis:
Lacerta desejava apoderar-se do
governo de El-Raslib. Interessava-o o poder. Que fez então?
Sendo muito jovem, orador brilhante e escritor imaginoso e fluente [...]
armou Lacerta uma intriga tão grave e aviltante contra o xeique
Etchag que este, desesperado, abandonado pelos amigos, pelos
parentes e até pelos militares, viu-se obrigado a deixar o cargo
de governador. E como era um homem brioso, de boa fibra moral,
não suportou o vexame da derrota política e praticou o
suicídio."
Outro personagem era
"um gramático de certo prestígio chamado
Moslaha Djehnem, apelidado Hakma, também chamado o
Vassoura, homem magro, de voz esganiçada. A
princípio, tudo correu bem. O povo confiava na capacidade
de Hakma e julgava-o, por sua viva sensibilidade e firmeza, capaz de
salvar o país dos contrabandistas, liquidar com os
falsários e exilar os xeiques corruptos. (...) Fui um dos muitos
que acreditaram nele. Confesso, agora profundamente envergonhado.
Para descrever a corrupção da
época, Malba Tahan não mede as palavras e suas
descrições continuam extremamente atuais:
"Sabemos, por outro lado, de austeros e circunspectos
muçulmanos que ingressam num cargo público (de
salário modesto) e deixam esse cargo, no fim de algum tempo,
ricos, principescamente ricos. Citarei, apenas, dois exemplos: o
governador Al-Demar Ben Lick, do Hedjaz, e o general Torak Hanifa,
que foi prefeito em Alepo. Estão ambos riquíssimos.
Para os generais, as críticas mais irônicas:
— E o senhor não acha excessivo, para o nosso
país, esse número fabuloso de generais reformados, de
almirantes e coronéis inativos? — arriscou, muito tímido,
na sua ingenuidade, o cordoeiro Salim.
- De forma
alguma — contestou, com veemência, o capitão numa
labareda de entusiasmo — De forma alguma. Precisamos triplicar ou
quintuplicar esse número. Sim, disse bem: quintuplicar!
Júlio César de Mello e Souza — o
escritor Malba Tahan — nasceu no dia 6 de maio de 1895. Natural do
Rio de Janeiro, passou a infância em Queluz, cidade do interior
de São Paulo. Formou-se em engenharia na Escola
Politécnica. Foi, por mais de sessenta anos, professor. Deu
aulas de História, Geografia, Física, mas foi a temida
Matemática que lhe trouxe fama e prestígio.
O pseudônimo surgiu com a união do nome de um
oásis do Iêmen, Malba, com o sobrenome de uma aluna,
Tahan que significa moleiro. Estudioso da cultura islâmica, ele
era profundo conhecedor dos textos do Alcorão e das
histórias do povo árabe. Morreu com 79 anos, no dia
18 de junho de 1974, no hotel Boa Viagem, em Recife, depois de uma
palestra para normalistas sobre a arte de contar histórias.