O novo romance de Carlos Nejar, CARTA AOS
LOUCOS, pode ser definido como uma biografia de uma
aldeia-mulher — Assombro, local de mais uma batalha entre os seres
humanos e o tempo. Neste embate, as imagens passam pelo olhar
feminino, pela subjetividade, pela metáfora. O estilo da
narrativa, enfatizando a atemporalidade do confronto, é
primitivo e mágico, remetendo simultaneamente aos
clássicos e ao realismo fantástico.
Poeta e o
ficcionista, Nejar resgata a tradição oral grega para
descrever o cotidiano de Assombro, povoado sem fronteiras que
abriga as tensões, o tédio e as expectativas de todos
nós. Israel Rolando é o escriba responsável
pelo registro dos fatos, que possui a arma capaz de derrotar o inimigo
e de preservar a vida dos habitantes da aldeia: a narrativa-livro que
registra e perpetua a existência humana. Os personagens
sentem-se relatados, conscientes da presença do narrador
entre eles e da importância de seus registros para a eternidade
de todos. Elas são coadjuvantes e partícipes.
Além do questionamento filosofico sobre o sentido da vida
que comporta, CARTA AOS LOUCOS é um romance
de pensamento a pensamento. Nele, Nejar dá o curso do rio
em que o realismo mágico necessita desembocar. Não
basta expor os excessos, mostrar o impossível, o
fantástico. É preciso identificá-lo de forma
precisa com a dialética do tempo real.
Carlos Nejar
nasceu em Porto Alegre, em 1939. Membro da Academia Brasileira de
Letras, tem sua obra reconhecida no exterior. Antônio Carlos
Secchin define em uma frase o talento do romancista: "A
ficção de Nejar se distancia dos modelos habituais de
narrativa, buscando captar o impalpável, sendo um domador
de sonhos."