Manoel de Barros assume, em CONCERTO A CÉU
ABERTO PARA SOLOS DE AVE, a posição de
leitor. Distancia-se e aprende com o
avô-árvore-gramofone, autor dos cadernos de
"apontamentos" e de "andarilho" que
compõem este livro, o nada "mero" jogo sonoro e
surreal de uma natureza transfeita em poesia. Entre garças,
descobre a graça e a ironia do ilimitado das palavras, do
"defeito" elementar de ficcionalizar o mundo.
Agindo como transcritor, o poeta entrega ao leitor um concerto de
sons vegetais, sons de raízes e de córregos,
audíveis apenas no silêncio entre uns e outros. Cada
verso seduz pelo desvio, pelas dissonâncias, e revela a
revolução das palavras.
A reedição
deste livro de Manoel de Barros vem lembrar ao leitor o
imprescindível: quando aves falam com as pedras e rãs
com as águas, é de poesia que estão falando.
Assim, a leitura dos poemas/apontamentos causa tanto mais prazer
quanto maior a disposição do leitor para preencher os
vazios e descobrir as regras do jogo poético. O efeito
tátil-visual das imagens criadas pelo poeta põe em
evidência as marcas de uma tradição
plástica que vai de Juan Miró a Paul Klee, no que
esses artistas apresentam de referências às coisas
inúteis e desimportantes. No inominável
de Beckett e na ausência de um anjo desses que vivem na
sombra, como o de Drummond, o poeta se incumbe de anunciar que
já nasceu torto, e que aos poetas coube o papel —
antes atribuído às moscas — de iluminar o silêncio
das coisas anônimas.
Nascido a 19 de dezembro de
1916, em Cuiabá, Manoel de Barros é casado, tem
três filhos e sete netos. É autor de 13 livros, entre os
quais Livro sobre nada — vencedor do prêmio
Nestlé de Literatura 1997 na categoria Poeta Consagrado —,
Livro das ignorãças, Arranjos para assobio,
Poemas concebidos sem pecado e Matéria de
poesia, entre outros.