Nenhuma vida, alerta Robert Bréchon, tem um só
sentido que se imponha ao biógrafo. Assim como ocorre com
uma obra, várias leituras diferentes podem ser feitas de uma
vida, e nenhuma delas detém a verdade absoluta. Para alguns
críticos, a de Fernando Pessoa é a mais trágica
de sempre; para outros, contém longas páginas de
deslumbramento e felicidade. ESTRANHO
ESTRANGEIRO é uma biografia não
apenas cronológica, mas também temática e
crítica de uma figura de importância incalculável
para a literatura de língua portuguesa.
Fernando
Pessoa nasceu em Lisboa em 1888. Começou seus estudos
em casa, sob orientação materna. Em 1895, dois anos
depois da morte do marido, a mãe de Pessoa casou-se com um
diplomata português, obrigando a família a mudar-se para
a África do Sul. Na escola secundária, descobriu a
literatura inglesa, particularmente a de Dickens. Em 1901, escreveu
seu primeiro poema em inglês conhecido: "Separated
From Thee", elegia romântica sobre a ausência
da mulher amada. Em 1902, escreveu seu primeiro grande poema em
português, "Quando ela passa...", inspirado na morte
da meia-irmã Madalena.
Em 1912, publicou os
primeiros ensaios de crítica da moderna poesia portuguesa na
revista A águia. O ano de 1914 foi decisivo, quando
nasceram seus três principais heterônimos, personalidades
definidas às quais atribuiu a autoria de suas poesias em
três estilos diferentes: Alberto Caeiro é um poeta de
sensações e observador irônico da vida, autor de
poesias como os ciclos O guardador de rebanhos e
Poemas inconjuntos; Álvaro de Campos, influenciado
por Walt Whitman, celebra a cidade moderna e técnica
("Ode triunfal", "Ode marítima" e
"Tabacaria"); Ricardo Reis compõe odes
bucólicas e elegíacas. As poesias que assinou com o
próprio nome são mais simples e emocionadas.
Os primeiros grupos de suas poesias portuguesas foram
publicados na revista Orpheu (1915), depois em Portugal
futurista. Entre 1924 e 1925, dirigiu a revista Atena. Em
1934, publicou seu primeiro e único livro, Mensagem.
Seus artigos de crítica e poética, nos quais procurava
defender sua personalíssima prática estética,
foram reunidos no volume Páginas de doutrina
estética em 1946.
Em vida, Fernando Pessoa —
que morreu em 30 de novembro de 1935 — foi reconhecido apenas
pelos limitados círculos da boemia literária de Lisboa.
Só quando seu volume Mensagem recebeu um
prêmio oficial, erroneamente interpretado como
manifestação do nacionalismo do regime, o poeta passou
a ser comentado em Portugal. O início da
publicação das Obras completas, em 1943,
começou a influenciar as novas gerações de
poetas portugueses e brasileiros.
Robert Bréchon
é um dos mais renomados especialistas da obra de Fernando
Pessoa e co-dirigiu a publicação na França de
Œuvres, nove volumes da poesia de Pessoa.