Um dia é da caça, o outro do
caçador. Segundo a americana Barbara Ehrenreich, esse
é o mais verdadeiro dos ditados. Em seu novo livro,
RITOS DE SANGUE, ela trata, numa abordagem
multidisciplinar, dos sentimentos que levam o homem a lutar — quais os
intrincados mecanismos sociais e morais que nos fizeram passar de
simples caça a guerreiros? Ao construir essa tese original, a
autora desafiou teorias defendidas por nomes como Darwin, Freud e
outros, num trabalho convincente. "Sempre me fascinou essa
questão: o que há com nossa espécie que nos
faz ver a guerra como algum tipo de sacramento?", argumenta
ela. "Por que a violência é vista, numa
ótica histórica, como o centro, o cerne da
definição do que é sagrado?"
RITOS DE SANGUE responde a essas
questões, mas sem tratar o assunto de forma acadêmica.
O resultado é um livro elogiado pelo público e,
principalmente, pela imprensa especializada: "Barbara
Ehrenreich se embrenhou em um dos tópicos mais
intratáveis da espécie humana, de forma
singular", enaltece o New York Times; "Ehrenreich se
superou ao romper com a história convencional",
é a opinião, por exemplo, da revista The Nation. O
sucesso não é gratuito. A autora compreende o alcance
do tema e escreve como que provocando os leitores, sem, no
entanto, super ou subestimá-los. Barbara destaca a
peculiaridade do processo de transformação do homem
de presa em predador e afirma que esse passo à frente na
cadeia alimentar não eliminou a memória do terror.
Um medo que era sublimado através
de ritos de sangue, sacrifícios humanos a deuses
carnívoros, recriando o papel da presa que, capturada pelo
animal predador, permitia, ao menos naquele instante, a fuga e
subseqüente sobrevivência do restante do grupo. Todo
esse banho de sangue, porém, é usado apenas como
reforço para seu argumento: o que é a guerra, e por
que ela tem sido uma constante em todas as sociedades? De acordo
com algumas teorias, a guerra seria, alternadamente, uma forma mais
radical da política ou, simplesmente,
racionalização de um instinto ancestral de animais
predadores.
Esta última
explicação é a hipótese tomada por
Barbara Ehrenreich na busca de uma teoria abrangente da guerra.
Mas ela vira a tese pelo avesso, mostrando que se o homem é
hoje uma raça de predadores, ele foi, durante longo tempo,
não caçador, mas caça. Para isso, ela analisa o
comportamento guerreiro humano desde a África
pré-histórica até os conflitos computadorizados,
no estilo videogame, e o fervor quase religioso presente em todos
aqueles envolvidos numa guerra ou que vivem em
função dessa possibilidade. A sacralização
do conflito — com oferendas e superstições — é a
atitude de uma criatura que apenas há pouco tempo perdeu o
medo dos ruídos que ouvia à noite.
Cruzando dados antropológicos,
biológicos, psicológicos e sociais, RITOS DE
SANGUE apresenta a guerra como herdeira desses
sacrifícios religiosos. É no trauma de ser presa que
reside a tendência humana a sacralizar a violência,
"no terror provocado pela besta assassina, associado à
coragem e ao altruísmo imprescindíveis para a defesa
do grupo". Os ritos religiosos de ontem são os ritos sociais
e políticos de hoje, com uma substancial mudança na
escala dos sacrifícios.
O grande
insight de Barbara é perceber que nossa
história moral está calcada no fato de termos sido
constantemente agredidos e caçados ao longo de nossa
história. Por já termos sido presas, sentimos o quanto
isso soa errado, atingindo uma espécie de memória
intuitiva. Foi a partir das caçadas que o instinto de
sobrevivência nasceu em nós. E para derrotar a guerra,
precisamos mudar o nosso foco, a maneira de entendê-la. Parar
de vê-la como inerente à nossa natureza e sim algo
apreendido do mundo.
Doutora em biologia pela Rockefeller University,
colaboradora de publicações como The New York
Times Magazine, The Washington Post Magazine,
Esquire, The Nation, The Wall Street Journal e
The Guardian, Barbara Ehrenreich é autora de
diversos ensaios sobre feminismo, entre eles Fear of Falling: The
Inner Life of Middle Class, Witches, Midwives and Nurses: A
History of Women Healers, e The Worst Years of Our Lives:
Irreverent Notes from a Decade of Greed.
"Uma singular pensadora da atualidade,
Barbara Ehrenreich se embrenhou em um dos assuntos mais
intratáveis da espécie humana." — The
New York Times Book Review
"Esplêndido...uma perspectiva
fascinante sobre nossa inclinação à
matança mútua. Ritos de sangue é o retrato
deste animal sanguinário, um marco da
não-ficção." — Newsweek
"Ehrenreich se superou ao romper com a
história convencional" — The Nation
"Original e
esclarecedor." — The Washington Post