Zoé Valdés, escritora cubana exilada em Paris,
não economiza palavras ao atacar sua terra natal. Se em O
nada cotidiano ela denuncia as privações e o
sofrimento do povo cubano, em Te dei a vida inteira,
lançamento da editora Record, mostra as mudanças
sociais e políticas que a ilha sofreu ao narrar sessenta anos na
vida de uma mulher, dos anos pré-revolucionários
até os dias de hoje.
Nascida no final da
década de 1930 em uma pequena aldeia do interior de Cuba,
Cuquita Martínez, como toda camponesa sonhadora, parte
para Havana, aos 16 anos, atrás do sonho da cidade grande.
Lá, encontra trabalho em um cortiço e sua irreverente
ingenuidade atrai a atenção de duas mulheres, que
acabam se tornando uma espécie de "madrinhas".
Aos poucos, Cuquita também descobre os aromas noturnos da
doce Havana e o mundo descompromissado, sensual e violento dos
anos do governo Batista. Mas como política nunca fez a
cabeça da moça, ela sonha em encontrar o amor de sua
vida, casar e ser feliz para sempre. Mas seu destino não
é tão benevolente. Ao som de um bolero, Te dei a
vida inteira, ela conhece o grande amor de sua vida, um mafioso
de segundo escalão que desaparece mais rápido que o
ritmo da música.
Mas a pobre Cuquita é
persistente, e por oito anos espera seu amado. Do amor consumado
e celebrado à desilusão e ao abandono, sua
herança: uma filha e uma nota de um dólar. Estamos em
1959 e Fidel Castro comemora a vitória da
Revolução. Mas Cuquita não festeja. A
Revolução levara seu amado para a América e
Cuquita passa a experimentar primeiro a privação
amorosa e depois a material. Sem deixar de lado o humor e a
sensualidade inerentes à sua personalidade, a cubana vai
contando as dores de sua vida e as proibições do regime
socialista. Até que, 36 anos depois, seu amado reaparece.
Na melhor tradição da literatura
latino-americana, Te dei a vida inteira é uma
fábula sobre as contradições políticas de
um país emblemático para as definições
políticas do século XX, da ressaca da derrocada de
uma utopia. Repleto de referências a ícones da
latinidade e inspirando-se na fala coloquial de Havana, Zoé
Valdés constrói um romance forte, que faz um jogo
irônico entre erotismo e política, dor e dólar,
miséria e recordações, incerteza e
esperança.
Zoé Valdés nasceu em
Havana em 1959. Formada em filologia, trabalhou durante muitos
anos na delegação de Cuba junto à Unesco e no
setor cultural da embaixada cubana em Paris. Conquistou
vários prêmios de poesia e foi finalista do concurso
literário La sonrisa vertical. É autora de O
nada cotidiano e do relato La hija del embajador, com o
qual obteve o prêmio Juan March Cencillo. Te dei a vida
inteira foi finalista do prestigiado prêmio Planeta e traduzido
para o francês, inglês e alemão. A autora mora em
Paris com a filha.