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A Inteligência e o Cadafalso (L’intelligence et l’échafaud)
Albert Camus
Literatura   144 páginas
Tradução de Manuel da Costa Pinto e Cristina Murachco
Formato: 14 x 21cm
ISBN: 8501053392

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Nenhum escritor moderno deixou de marcar sua obra com uma reflexão profunda sobre a essência da literatura. A meditação crítica é evidente seja nos ensaios de autores como Valéry, Pound, Eliot, Borges ou Calvino, seja nas correspondências poéticas que pressupõem as obras de Rimbaud, Joyce, Fernando Pessoa, Kafka ou Céline. No caso de Albert Camus, porém, a preocupação com a linguagem literária foi muitas vezes obscurecida por leituras que queriam decifrar as alegorias filosóficas de sua ficção ou encontrar as fontes subjetivas de seu pensamento, pondo a perder tanto a força narrativa de relatos como O estrangeiro e A queda quanto a singularidade de ensaios como O avesso e o direito, O mito de Sísifo ou O homem revoltado.

A INTELIGÊNCIA E O CADAFALSO, coletânea que reúne seus textos críticos, restitui Camus ao universo literário que sempre alimentou uma criação que retorna sem cessar a um horizonte pessoal de representações. O mais longo destes ensaios, uma leitura da obra de Roger Martin du Gard, é uma pequena aula de interpretação literária. Mas é num comentário absolutamente periférico — quando afirma que, "como todo verdadeiro artista, Martin du Gard não consegue se livrar de suas obsessões" — que podemos reconhecer a maneira como Camus lê os autores que elege. O que ele encontra é justamente a figuração de um hedonismo desesperado que estará na origem de Núpcias, um de seus primeiros livros, e da noção de absurdo que vai percorrer todas as suas obras ficcionais e ensaísticas.

Só isso já seria suficiente para mostrar o quanto o pensamento de Camus tem uma raiz literária totalmente diferente do existencialismo, ao qual vem normalmente associado. É o próprio Camus quem o nota, ao observar que o Sartre de A náusea faz com que o desacordo do homem frente à realidade brote daquilo que é repugnante, ao passo que, para Camus, o absurdo nasce justamente da contemplação de êxtases envenenados pela idéia da morte. "Sem a beleza, o amor ou o perigo, seria quase fácil viver."

Publicado em 1943, pouco depois de O estrangeiro, A inteligência e o cadafalso condensa o percurso literário e ensaístico de Camus. A partir daí, sua obra se desdobra em personagens e em raciocínios concêntricos: o absurdo, a gratuidade, a culpa, o gozo e a beleza encarnam sua concepção do homem. Nos textos deste livro, é possível reconhecer as engrenagens do absurdo. Trata-se, enfim, de uma mitologia pessoal, projetada nas suas leituras, nas reflexões sobre a linguagem e sobre a literatura que podem redimensionar o alcance de sua obra como um dos marcos da literatura desse século.




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