Nenhum escritor moderno deixou de marcar sua obra com uma
reflexão profunda sobre a essência da literatura. A
meditação crítica é evidente seja nos
ensaios de autores como Valéry, Pound, Eliot, Borges ou
Calvino, seja nas correspondências poéticas que
pressupõem as obras de Rimbaud, Joyce, Fernando Pessoa,
Kafka ou Céline. No caso de Albert Camus, porém, a
preocupação com a linguagem literária foi muitas
vezes obscurecida por leituras que queriam decifrar as alegorias
filosóficas de sua ficção ou encontrar as fontes
subjetivas de seu pensamento, pondo a perder tanto a força
narrativa de relatos como O estrangeiro e A queda
quanto a singularidade de ensaios como O avesso e o direito,
O mito de Sísifo ou O homem revoltado.
A INTELIGÊNCIA E O CADAFALSO,
coletânea que reúne seus textos críticos, restitui
Camus ao universo literário que sempre alimentou uma
criação que retorna sem cessar a um horizonte pessoal
de representações. O mais longo destes ensaios, uma
leitura da obra de Roger Martin du Gard, é uma pequena aula
de interpretação literária. Mas é num
comentário absolutamente periférico — quando afirma
que, "como todo verdadeiro artista, Martin du Gard não
consegue se livrar de suas obsessões" — que podemos
reconhecer a maneira como Camus lê os autores que elege. O
que ele encontra é justamente a figuração de um
hedonismo desesperado que estará na origem de
Núpcias, um de seus primeiros livros, e da
noção de absurdo que vai percorrer todas as suas obras
ficcionais e ensaísticas.
Só isso já
seria suficiente para mostrar o quanto o pensamento de Camus tem
uma raiz literária totalmente diferente do existencialismo, ao
qual vem normalmente associado. É o próprio Camus
quem o nota, ao observar que o Sartre de A náusea
faz com que o desacordo do homem frente à realidade brote
daquilo que é repugnante, ao passo que, para Camus, o
absurdo nasce justamente da contemplação de
êxtases envenenados pela idéia da morte. "Sem a
beleza, o amor ou o perigo, seria quase fácil viver."
Publicado em 1943, pouco depois de O estrangeiro, A
inteligência e o cadafalso condensa o percurso
literário e ensaístico de Camus. A partir daí, sua
obra se desdobra em personagens e em raciocínios
concêntricos: o absurdo, a gratuidade, a culpa, o gozo e a
beleza encarnam sua concepção do homem. Nos textos
deste livro, é possível reconhecer as engrenagens do
absurdo. Trata-se, enfim, de uma mitologia pessoal, projetada nas
suas leituras, nas reflexões sobre a linguagem e sobre a
literatura que podem redimensionar o alcance de sua obra como um
dos marcos da literatura desse século.