Renascimento, grandes navegações, livros raros,
música clássica e arqueologia — coisas quase sagradas
para os apreciadores da arte, do conhecimento e da aventura. O que,
então, teria um demônio a ver com elas? Na narrativa
envolvente e bem-humorada do romance Memórias de um
diabo de garrafa, o escritor e jornalista Alexandre Raposo mostra que,
em algumas empreitadas humanas, pode estar o dedo escamoso e frio
do demo.
O livro é a autobiografia de Giacomo
Lorenzo Bembo, um diabo "conjurado nas ruínas do
Coliseu romano, na madrugada de 31 de outubro do ano de 1526
d.C.", pelo escultor e ourives renascentista Benvenuto Cellini
(1500-1571).
A descrição do personagem
é fornecida ainda no prólogo: "Mede cerca de 20
centímetros, do chifre à ponta da cauda, e, visto de
relance, imóvel dentro da garrafa, bem poderia ser confundido
com um réptil exumado em formol. Tem o corpo revestido de
escamas, os dedos dos pés e das mãos unidos por fina
membrana, braços e pernas esguios e músculos bem
delineados, como os de um tiranossauro em miniatura. Possui um
único chifre, em verdade uma crista cartilaginosa no topo da
cabeça que usou uma única vez, para romper a casca
do ovo onde foi gerado. A cauda é semelhante à de
um iguana e culmina em um ferrão curvo, absolutamente
inofensivo."
A narrativa se estende por cinco
séculos, tempo no qual Giacomo se associa a gente famosa,
como o pirata Francis Drake, o violinista Nicolò Paganini, bem
como a outras criaturas menos célebres, mas igualmente
pitorescas, como Nuno da Silva, marinheiro português do tempo
das grandes navegações; Khosr, diabo assírio de
mais de 2,5 mil anos de idade; e José Afonso
Gonçalves, jovem arqueólogo brasileiro de fins do
século passado, envolvido em uma trama de ladrões de
casaca no Oriente Médio.
O jornalista Alexandre
Raposo foi editor da sucursal carioca de Playboy, diretor da
revista Ele Ela e há mais de sete anos dedica-se
exclusivamente à literatura. É também autor de
Inca: A Saga da América Pré-Colombiana,
Record, 1997.
Entrevista: Alexandre
Raposo
O DEDO DO DEMO
Livro relata
aventuras de um diabo ao longo da história universal
Agência R
O que o levou a escrever
as memórias de um diabo de garrafa?
Quando
terminei de escrever Inca: a saga da América
pré-colombiana — um trabalho extremamente compensador,
mas que me absorveu durante quase cinco anos —, me vi como que
"atolado" no século XVI. A imersão foi
tão profunda que acabei prisioneiro daquela época. Criar
um personagem que viveu quase meio milênio, não por
acaso do século XVI até fins do século XX, foi
a forma que eu encontrei para voltar são e salvo ao nosso
tempo presente. Em verdade, Memórias de um diabo de
garrafa foi uma operação de resgate.
Mas por que esse personagem tinha que ser justamente um
diabo?
Não tinha. Calhou de ser assim. Mas
é bom que se esclareça que Giacomo não era um
diabo na completa acepção do termo. Seria mais um
daimon grego, ou seja, um espírito, não
necessariamente maléfico, que inspira os homens em
momentos decisivos. Meu personagem não era um anjo de
candura, mas a verdade é que a pouca maldade que tinha,
adquiriu-a dos humanos com quem teve contato. Ao fim da vida, era
cínico, amargo, cético, mas extremamente
bem-humorado para alguém tão idoso.
Você diz que Giacomo não é um
demônio dentro do conceito comumente usado, ou seja, um
espírito mau, e está presente em empreitadas
importantes para o progresso da humanidade. Então, o que
dizer do maniqueísmo? É invenção
humana?
O que eu digo é que esse
diabo não era de todo mau. Quanto aos outros, não
tenho a menor idéia. E o fato dele não ser de todo mau
também não o faz de todo bom. Como sabemos, de
boas intenções está cheio o inferno.
Na mitologia brasileira também existe a figura do diabo
de garrafa. Qual
é a origem histórica deste
personagem?
Lendas sobre diabos ou espíritos
que habitam objetos de uso diário como garrafas,
lâmpadas, baús e canastras ocorrem em todas as
culturas. O gênio de Aladim é o exemplo clássico.
Mas há também referências a duendes
engarrafados no folclore celta, nórdico, anglo-saxônio e
germânico. Guimarães Rosa mencionou um diabo de
garrafa em Grandes Sertões: Veredas. Monteiro Lobato
fez Pedrinho engarrafar um saci. Sidney Sheldon concebeu
Jeannie é um gênio. Já houve até
diabo de garrafa como ator coadjuvante de novela das oito.
São tantas as ocorrências! Agora, a origem disso se perde
na noite dos tempos. Talvez — mero palpite — esteja associado
às emanações do álcool. Até hoje
chamamos os destilados de "espíritos"...
O que pode haver de tão extraordinário a
respeito de uma criatura que passou toda a vida confinada a uma
área igual à de um vasilhame de Coca-Cola
família?
Muita coisa. Principalmente se essa
criatura é inteligente. tem senso de humor, olho crítico.
Giacomo teve uma vida bem movimentada. Nesses quase cinco
séculos de existência, associou-se a pessoas
extraordinárias, como o escultor e ourives renascentista
Benvenuto Cellini, o navegador português Nuno da Silva, o
frade dominicano Suarez e o compositor e virtuose italiano
Nicolò Paganini. Meu diabo cruzou o Estreito de
Magalhães ao lado do pirata Francis Drake, foi interrogado por
teólogos nos tempos da Santa Inquisição,
acompanhou uma dupla de ladrões de casaca em fuga do
Oriente Médio, entre tantas outras aventuras. Na verdade, os
donos — e não o diabo — são os protagonistas da trama.
Qual o critério que você usou para
escolher os personagens célebres incluídos neste
romance?
Poderia dizer que fiz questão de buscar
gente pouco conhecida mas brilhante, que teve papel
secundário, mas fundamental, na história da
humanidade. Um panteão de anti-heróis também
seria resposta confortável. Mas a verdade é que
não tenho controle absoluto sobre o processo criativo; e me
pergunto se alguém de fato o tem. Há celebridades
neste livro que eu jamais pensaria incluir em um romance. Se
aí estão, é porque têm vida e vontade
próprias.
Esse livro confirma a sua
predileção por romances históricos?
Confirma a minha predileção por
ficção científica, que é a grande vertente
à qual pertence a ficção histórica, uma
subcategoria. Classifico como ficção científica
toda obra que tem a ciência como estofo teórico. No
caso de Inca e Memórias de um diabo de
garrafa, a ficção é histórica. Mas
nada me impede que, no futuro, eu venha a fazer ficção
com astronomia, genética, psicologia, parapsicologia. Afinal,
se a gente pensar bem, todo romance é histórico.
Mesmo que involuntariamente, todo romance retrata assuntos
incluídos num determinado contexto de tempo, espaço,
cultura.
Quanto tempo você levou para pesquisar
e escrever este livro?
Um ano e meio,
aproximadamente. Se considerarmos que o romance anterior demorou
quase cinco, até que esse saiu bem rápido. A
variedade de assuntos a serem abordados em Memórias de
um diabo de garrafa — escultura, ourivesaria,
navegação oceânica, livros raros, demonologia,
música clássica e arqueologia — o tornava um projeto
tremendamente ambicioso. O grande elenco de personagens famosos
também me parecia um desafio literário
insuperável. Para a minha sorte, porém, todos esses
assuntos estão muito bem documentados; o contrário do
que aconteceu com Inca, cuja informação eu tive
que garimpar in loco, e a duras penas.
Podemos
dizer então que Memórias de um diabo de
garrafa é uma obra de minuciosa
reconstituição histórica?
Longe
disso! É tão somente uma obra de ficção.
Além do mais, vá o leitor esperar precisão
histórica na narrativa de um diabo caduco, velho de
quatrocentos e tantos anos... Há muitas imprecisões
históricas no livro, a maioria propositais, para frisar este ou
aquele facciosismo do personagem, outras por comodidade de roteiro
e ainda outras por erro ou omissão do próprio autor.
Você já tem planos para um novo
romance?
Tenho já pronto um livro de contos.
Mas ainda não tive nenhuma boa idéia para um
próximo romance. A gente se sente um tanto vazio
após uma empreitada como essa. Os personagens nos sugam
os ossos! Mas tenho certeza que muito em breve teremos
notícias sobre o que o meu subconsciente está
tramando para a próxima temporada.