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Memórias de um Diabo de Garrafa
Alexandre Raposo
Romance   336 páginas
Formato: 14 x 21cm
ISBN: 8501053686

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Renascimento, grandes navegações, livros raros, música clássica e arqueologia — coisas quase sagradas para os apreciadores da arte, do conhecimento e da aventura. O que, então, teria um demônio a ver com elas? Na narrativa envolvente e bem-humorada do romance Memórias de um diabo de garrafa, o escritor e jornalista Alexandre Raposo mostra que, em algumas empreitadas humanas, pode estar o dedo escamoso e frio do demo.

O livro é a autobiografia de Giacomo Lorenzo Bembo, um diabo "conjurado nas ruínas do Coliseu romano, na madrugada de 31 de outubro do ano de 1526 d.C.", pelo escultor e ourives renascentista Benvenuto Cellini (1500-1571).

A descrição do personagem é fornecida ainda no prólogo: "Mede cerca de 20 centímetros, do chifre à ponta da cauda, e, visto de relance, imóvel dentro da garrafa, bem poderia ser confundido com um réptil exumado em formol. Tem o corpo revestido de escamas, os dedos dos pés e das mãos unidos por fina membrana, braços e pernas esguios e músculos bem delineados, como os de um tiranossauro em miniatura. Possui um único chifre, em verdade uma crista cartilaginosa no topo da cabeça que usou uma única vez, para romper a casca do ovo onde foi gerado. A cauda é semelhante à de um iguana e culmina em um ferrão curvo, absolutamente inofensivo."

A narrativa se estende por cinco séculos, tempo no qual Giacomo se associa a gente famosa, como o pirata Francis Drake, o violinista Nicolò Paganini, bem como a outras criaturas menos célebres, mas igualmente pitorescas, como Nuno da Silva, marinheiro português do tempo das grandes navegações; Khosr, diabo assírio de mais de 2,5 mil anos de idade; e José Afonso Gonçalves, jovem arqueólogo brasileiro de fins do século passado, envolvido em uma trama de ladrões de casaca no Oriente Médio.

O jornalista Alexandre Raposo foi editor da sucursal carioca de Playboy, diretor da revista Ele Ela e há mais de sete anos dedica-se exclusivamente à literatura. É também autor de Inca: A Saga da América Pré-Colombiana, Record, 1997.


Entrevista: Alexandre Raposo

O DEDO DO DEMO
Livro relata aventuras de um diabo ao longo da história universal
Agência R

O que o levou a escrever as memórias de um diabo de garrafa?

Quando terminei de escrever Inca: a saga da América pré-colombiana — um trabalho extremamente compensador, mas que me absorveu durante quase cinco anos —, me vi como que "atolado" no século XVI. A imersão foi tão profunda que acabei prisioneiro daquela época. Criar um personagem que viveu quase meio milênio, não por acaso do século XVI até fins do século XX, foi a forma que eu encontrei para voltar são e salvo ao nosso tempo presente. Em verdade, Memórias de um diabo de garrafa foi uma operação de resgate.

Mas por que esse personagem tinha que ser justamente um diabo?

Não tinha. Calhou de ser assim. Mas é bom que se esclareça que Giacomo não era um diabo na completa acepção do termo. Seria mais um daimon grego, ou seja, um espírito, não necessariamente maléfico, que inspira os homens em momentos decisivos. Meu personagem não era um anjo de candura, mas a verdade é que a pouca maldade que tinha, adquiriu-a dos humanos com quem teve contato. Ao fim da vida, era cínico, amargo, cético, mas extremamente bem-humorado para alguém tão idoso.

Você diz que Giacomo não é um demônio dentro do conceito comumente usado, ou seja, um espírito mau, e está presente em empreitadas importantes para o progresso da humanidade. Então, o que dizer do maniqueísmo? É invenção humana?

O que eu digo é que esse diabo não era de todo mau. Quanto aos outros, não tenho a menor idéia. E o fato dele não ser de todo mau também não o faz de todo bom. Como sabemos, de boas intenções está cheio o inferno.

Na mitologia brasileira também existe a figura do diabo de garrafa. Qual
é a origem histórica deste personagem?

Lendas sobre diabos ou espíritos que habitam objetos de uso diário como garrafas, lâmpadas, baús e canastras ocorrem em todas as culturas. O gênio de Aladim é o exemplo clássico. Mas há também referências a duendes engarrafados no folclore celta, nórdico, anglo-saxônio e germânico. Guimarães Rosa mencionou um diabo de garrafa em Grandes Sertões: Veredas. Monteiro Lobato fez Pedrinho engarrafar um saci. Sidney Sheldon concebeu Jeannie é um gênio. Já houve até diabo de garrafa como ator coadjuvante de novela das oito. São tantas as ocorrências! Agora, a origem disso se perde na noite dos tempos. Talvez — mero palpite — esteja associado às emanações do álcool. Até hoje chamamos os destilados de "espíritos"...


O que pode haver de tão extraordinário a respeito de uma criatura que passou toda a vida confinada a uma área igual à de um vasilhame de Coca-Cola família?

Muita coisa. Principalmente se essa criatura é inteligente. tem senso de humor, olho crítico. Giacomo teve uma vida bem movimentada. Nesses quase cinco séculos de existência, associou-se a pessoas extraordinárias, como o escultor e ourives renascentista Benvenuto Cellini, o navegador português Nuno da Silva, o frade dominicano Suarez e o compositor e virtuose italiano Nicolò Paganini. Meu diabo cruzou o Estreito de Magalhães ao lado do pirata Francis Drake, foi interrogado por teólogos nos tempos da Santa Inquisição, acompanhou uma dupla de ladrões de casaca em fuga do Oriente Médio, entre tantas outras aventuras. Na verdade, os donos — e não o diabo — são os protagonistas da trama.

Qual o critério que você usou para escolher os personagens célebres incluídos neste romance?

Poderia dizer que fiz questão de buscar gente pouco conhecida mas brilhante, que teve papel secundário, mas fundamental, na história da humanidade. Um panteão de anti-heróis também seria resposta confortável. Mas a verdade é que não tenho controle absoluto sobre o processo criativo; e me pergunto se alguém de fato o tem. Há celebridades neste livro que eu jamais pensaria incluir em um romance. Se aí estão, é porque têm vida e vontade próprias.

Esse livro confirma a sua predileção por romances históricos?

Confirma a minha predileção por ficção científica, que é a grande vertente à qual pertence a ficção histórica, uma subcategoria. Classifico como ficção científica toda obra que tem a ciência como estofo teórico. No caso de Inca e Memórias de um diabo de garrafa, a ficção é histórica. Mas nada me impede que, no futuro, eu venha a fazer ficção com astronomia, genética, psicologia, parapsicologia. Afinal, se a gente pensar bem, todo romance é histórico. Mesmo que involuntariamente, todo romance retrata assuntos incluídos num determinado contexto de tempo, espaço, cultura.

Quanto tempo você levou para pesquisar e escrever este livro?

Um ano e meio, aproximadamente. Se considerarmos que o romance anterior demorou quase cinco, até que esse saiu bem rápido. A variedade de assuntos a serem abordados em Memórias de um diabo de garrafa — escultura, ourivesaria, navegação oceânica, livros raros, demonologia, música clássica e arqueologia — o tornava um projeto tremendamente ambicioso. O grande elenco de personagens famosos também me parecia um desafio literário insuperável. Para a minha sorte, porém, todos esses assuntos estão muito bem documentados; o contrário do que aconteceu com Inca, cuja informação eu tive que garimpar in loco, e a duras penas.

Podemos dizer então que Memórias de um diabo de garrafa é uma obra de minuciosa reconstituição histórica?

Longe disso! É tão somente uma obra de ficção. Além do mais, vá o leitor esperar precisão histórica na narrativa de um diabo caduco, velho de quatrocentos e tantos anos... Há muitas imprecisões históricas no livro, a maioria propositais, para frisar este ou aquele facciosismo do personagem, outras por comodidade de roteiro e ainda outras por erro ou omissão do próprio autor.

Você já tem planos para um novo romance?

Tenho já pronto um livro de contos. Mas ainda não tive nenhuma boa idéia para um próximo romance. A gente se sente um tanto vazio após uma empreitada como essa. Os personagens nos sugam os ossos! Mas tenho certeza que muito em breve teremos notícias sobre o que o meu subconsciente está tramando para a próxima temporada.




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