Maria José de Queiroz começou mineiramente seu
itinerário intelectual pelo caminho humanístico, quase
à antiga, sobretudo pelo número de coisas que,
letrada, ela sabe na ponta da língua. Sua estréia
é de 1961. Transcorreu exatamente uma década
até que ela se animasse a sair do ensaio, da crítica
universitária. Foram anos de exercício intenso.
HOMEM DE SETE PARTIDAS é seu terceiro romance. A
ficção conquistou-a, em livro, desde 1973, com as
fábulas de Como me contaram. Maria José
aproximava-se por aí do romance, em que mergulhou com
apetite e descontração.
Neste romance, como
nos anteriores, a fabulação corre paralela à
fluência de um coloquial com ares de erudição,
ainda que espontânea. Só incorpora o popular
através do filtro da linguagem policiada, mesmo quando se
trata de conversinha doméstica, maneira.
O apelo da
aventura opõe-se ao que pode ser um certo abafamento
montanhês. Ou mineiro. Em "Invenção a duas
vozes", o casal fechado num cotidiano banal e bem-sucedido deixa
cair as máscaras quando vê-se preso no huis clos da
Pampulha, exatamente na quadra do carnaval.
O
cosmopolitismo, que está presente também neste
romance, pode ser visto como uma espécie de
libertação das amarras que cercam e que reprimem o
cotidiano mineiro, ou belo-horizontino. O convite à viagem
funde-se, romântico, à vocação de
felicidade. Feliz é assim o HOMEM DE SETE PARTIDAS, o tio
que se desprende da mulher estéril, da rotina sufocante, da
família que cerra-lhe as portas do mundo.
A
ficção mineira, marcada pela fatalidade regional, aqui
ganha asas, sobrevoa as montanhas e sai pelo mundo com a
intimidade turística a que nos habituou o progresso das
comunicações. Neste sentido, Maria José de
Queiroz, mineira genuína, é também uma
escritora de sete partidas e de sete mares, para quem a aventura
humana freqüenta, com igual familiaridade, os quatro pontos
cardeais.
Vale a pena acompanhá-la nessa viagem
que alia a imaginação à realidade. Sempre se
disse que a viagem rejuvenesce. É possível que
apenas crie ilusões, entre elas, essa do rejuvenescimento. Em
vez de discutir o mérito das viagens, o melhor que o leitor
fará é embarcar nesta aventura que Maria José
de Queiroz lhe propõe, no conforto de um ritmo escorreito e de
uma linguagem veloz, como convém às
peripécias e às personagens que não
estão condenadas à mesmice e ao marasmo.