Helder Macedo passou a maior parte de sua infância em
Lourenço Marques, Moçambique. Freqüentou a
Faculdade de Direito em Lisboa e acabou, por motivos
políticos, tomando o caminho do exílio durante a
ditadura. Foi para Londres. Após o 25 de abril, um retorno
temporário a Portugal e, novamente, a decisão de morar
no exterior, mais precisamente na Inglaterra. A troca de
espaços geográficos, o contato com culturas tão
diametralmente opostas se refletem na visão crítica e
universal do seu discurso literário, livre da lógica
estabelecida dentro das fronteiras.
O professor de literatura,
diretor do departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros no
King’s College — que, entre seus mestres, destaca Stendhal, Fielding e
Machado de Assis —, agrega o exercício literário
acadêmico no seu mais refinado sentido à sua obra de
ficção. Nela, além da trama sentimental, dos fatos
históricos, surgem outras trilhas já percorridas por
Camões, Pessoa, Garrett e outros escritores consagrados.
Por algumas décadas, o Helder Macedo romancista
permaneceu em estado latente. Aos 20 anos, ele estreou na poesia,
aos 40, no ensaio, e somente aos 55, na ficção. O
primeiro passo, no ano de 1981, foi Partes de África,
uma biografia feita com fragmentos de memória que se
fundem, sem demarcação de limites, com personagens e
fatos do imaginário do autor. A resposta da crítica foi a
mais positiva possível.
Sete anos depois, o segundo
romance: PEDRO E PAULA, a história de um casal
de gêmeos, antagônicos e complementares. Nascidos em
1945 (quando "toda a gente foi para a rua celebrar com
bandeiras inglesas, francesas, americanas e do Benfica" o fim
do conflito mundial), os irmãos tornam-se observadores e
participantes das mudanças
sócio-político-culturais de seu país. Os
irmãos são aparentados com outro par: Sigmund e
Sieglind, que, por sua paixão, são punidos pelo
traído Hunding, o poder terreno, e por Wotan, o senhor do
Walhall.
Para o leitor desatento, a trama é linear
como o enredo de Casablanca que, intencionalmente, aparece nas
primeiras páginas do livro. Fim de guerra, uma desilusão
amorosa, um casamento frustrado, filhos. O paradigma romântico
inicial acaba se aproximando da tragédia grega e, como nas
peças atenienses, as intenções das
metáforas e do simbolismo dos fatos não são
percebidos à primeira vista. São necessárias
imersões mais profundas para perceber a
inter-relação de indivíduo e coletividade.
Neste romance, Helder Macedo percorre meio século da
vida portuguesa, tendo Lisboa, Londres e Lourenço Marques
colonial como cenário de fundo. A narrativa é
polifônica, rítmica, mas também usa jogos
intertextuais. No fim de PEDRO E PAULA, o narrador,
rendido, abre mão da onisciência e se transforma em
personagem.