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A chave do enigma
Fernando Sabino
Crônicas   224 páginas
Formato 14 x 21 cm
ISBN: 8501912301

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QUE enigma o autor apresenta, invocando a ameaça da esfinge de devorar quem não decifrá-lo?

Calma! - ele parece rogar ao leitor, deixando para o fim a enunciação do enigma e a apresentação da sua chave ( que certamente servirá para abrir várias portas).

Enquanto isso, começa por deixar fluir as lembranças mais extraordinárias. A das inacreditáveis coincidências que o surpreendem a cada passo ao longo da vida. Sua atuação de jornalista improvisado no saudoso Diário Carioca, em meio a figuras hoje legendárias na imprensa brasileira. O ponto assinado toda noite e a noite toda, no bar da esquina, em meio à turma de amigos inesquecíveis. Lembranças que vão dos jogos implacáveis de sua infância, até um sapo difícil de engolir. E a do exemplo, ao vivo, de como realidade e fantasia podem fundir-se na vida cotidiana de um escritor.

Em seguida narra ele fascinantes episódios da convivência com vários companheiros, como Mário de Andrade, o pianista Sasha, o músico Aloyzio de Oliveira, o ator Adolfo Celi, o romancista Octavio de Faria, os amigos Rubem Braga, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino.

Não fica nisso. Mergulha de cabeça no mundo das fábulas, que vão de "causos mineiros" como o da posse do burro, ao do pintor que não sabia pintar. Narra o encontro sonambúlico de um escritor brasileiro com o ator Laurence Olivier em Roma. Conta como Papai Noel ficou a ver navios por causa de uma caixa de uisque. Descreve a noite de amor de um casal sonolento e revela o fascínio de uma jovem pela simpatia de um defunto.

Penetrando no mundo encantado das palavras, Fernando Sabino passa a descrever as diversas aventuras e desventuras do escritor com seu esquivo instrumento verbal, na luta pela expressão - em plena vigília ou no mundo dos sonhos, tanto em português como em inglês. A propósito dos originais submetidos à sua apreciação, que jamais tem coragem de ler e não gostar, lança os fundamentos da arte de gostar sem ter lido.

E finalmente chega ele à enunciação do enigma, ao tratar de Minas, as Alterosas. Segundo o mineiro, sua terra é assim chamada por causa das mulheres de lá, "que são meio alterosas, acabam sempre dando alteração". Narra uma pitoresca viagem pelas Cidades do Ouro: São João del Rei, Tiradentes, Congonhas, Sabará,. Ouro Preto, em busca do mistério que se esconde atrás das montanhas de Minas e .na alma do mineiro. Dimantina ao cair da tarde - terra de onde saiu o mineiro Juscelino Kubistscheck para animar um pouco a Presidência da República. O barro de que foi feito Adão, na arte popular dos artífices de Jequitinhonha. Lembranças de seu tempo de mineirice em Belo Horizonte, onde a vida é esta: subir Bahia, descer Floresta. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Então o sol também é, pois nasce todo dia em tão belo horizonte.

Que é ser mineiro, afinal?

O mistério de Minas como o desafio da esfinge: decifra-me, ou devoro-te. Prefere ser devorado? Sim, pois ser mineiro, em suma, é não tocar neste assunto.

A chave do enigma - nova seleção de um gênero literário variado e original (chamado indiferentemente de crônica, conto ou história curta), do qual Fernando Sabino se tornou verdadeiro mestre.

 

Trechos de A CHAVE DO ENIGMA, de FERNANDO SABINO

MINAS

O TURISTA perguntou ao mineiro por que o Estado de Minas Gerais é conhecido como "As Alterosas".

- Sei não - foi a resposta. - Vai ver que é por causa das mulheres mineiras, que são muito alterosas. Basta uma para dar logo alteração.

CAMINHANDO pelas ruas de São João del Rei. Uma dor de cabeça renitente pede com urgência um comprimido. Se fosse dor de dente, pediria Cera Dr. Lustosa. Ainda há em São João quem se lembre do próprio Dr. Lustosa, criador da milagrosa cera, cujo cheiro característico me vem da infância. Não encontro nenhuma farmácia aberta. Abordo um passante, que me informa polidamente haver uma de plantão perto da Estação Rodoviária.

- E é muito longe a Rodoviária? - pergunto.

- É - responde ele apenas, e prossegue o seu caminho.

SABARÁ é a terra da jabuticaba. De repente, em certa época do ano, Belo Horizonte se esvaziava: todo mundo vinha a Sabará chupar jabuticabas, que eram vendidas no pé. O freguês chupava quantas quisesse, até cair do galho. Só não podia levar nenhuma.

Há algum tempo um velho coronel mineiro, intrigado, perguntava:

- Todo mundo agora está indo para a Europa: o Juca já foi, o seu Chiquinho também, o Zé da Sá Rita está de mala pronta... É tempo de jabuticaba lá?

NO QUE eu depender de informações desses meus conterrâneos, acabo indo parar na casa da mãe Joana. Pergunto a este outro, no posto de gasolina, a distância dali até Diamantina.

- Não é muito perto não. Mas também não é longe - informa ele, sério.

- Quanto tempo vou levar daqui até lá?

- É conforme, uai. Se correr muito, leva pouco, se correr pouco, leva muito.

OS BECOS em Diamantina conservam os nomes da época do ouro e dos diamantes: Beco das Caveiras, das Gaivotas, da Tasca, do Rapacuia, da Paciência, do Pinta-Ratos. Cada um com sua motivação histórica: o do Pinta-Ratos, por exemplo, é homenagem a um pintor que, para se vingar da Irmandade que lhe devia um dinheiro, trancou-se na sacristia da igreja e pintou dezenas de ratos em suas paredes; o da Paciência era usado para despejo do lixo e pelos tropeiros, que ali satisfaziam suas necessidades - paciência houvesse para passar por ali.

- SE sou mineiro? Bem, é conforme.

Tudo é conforme: sabe-se lá por que estão perguntando? ? O que é ser mineiro, afinal? Basta ter nascido em Minas? Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado - tudo isso junto. Experimente perguntar-lhe com delicadeza:

- Como é mesmo o seu nome todo?

Ele responderá, também delicado:

- Fale a parte que você sabe.

Se por sua vez não perguntar:

- Por que você quer saber?

TUDO que me ocorre dizer sobre o mineiro já foi dito, contado e recontado. Só mesmo me valendo mineiramente do que já escrevi sobre o enigma de Minas:

" Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações fluindo desde as minhas origens, como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais ... Prefiro estancá-la no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério de minha terra, desafiando-me como a esfinge com seu enigma: decifra-me ou devoro-te.

Prefiro ser devorado."




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