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Bondfaro
O Anatomista
Federico Andahazi
Romance   192 páginas
Formato: 14 x 21cm


Você pode conhecer aqui uma pequena amostra de O Anatomista, romance de Federico Andahazi, que lidera a lista dos mais vendidos na Argentina desde março. Os direitos deste livro já foram vendidos para Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Holanda, Dinamarca, Portugal, Suécia, Noruega, Finlândia, Grécia, China, Bósnia e Islândia.

Federico Andahazi recria a história de Mateo Colombo, uma das grandes sumidades da Medicina e o maior anatomista do Renascimento. Apaixonado pela sua arte, pelos novos conhecimentos e pelos encantos de Mona Sofia - a prostituta mais cobiçada de Veneza -, o anatomista vasculha todas as possibilidades do corpo até descobrir o grande segredo do prazer feminino: o Amor Veneris, o equivalente anatômico do pequeno orgão conhecido como clitóris. "Oh, minha América, minha doce terra encontrada", escreve Mateo Colombo em seu tratado De re anatomica (livro XI, capítulo XVI, Veneza, 1559), certo de que descobriu algo tão importante como o seu xará genovês, embora a sua América não excedesse em tamanho as dimensões da cabeça de um prego. Como se verá, o Amor Veneris, mesmo a revelia do Santo Ofício, funda uma nova mulher e desencadeia uma tragédia. Este romance mostra a história de um descobrimento e a crônica de uma tragédia.

O Anatomista já conquistou Hector Babenco, Milos Forman e Antonio Banderas, que estão disputando para levar o livro às telas.

Comece a descobrir agora este romance fascinante!

Maiores informações com Bárbara Anaissi ou Fabiana de Moraes no tel. (021) 542-0248 ou fax (021) 275-0294.

PRÓLOGO

A primavera do olhar

"Oh, minha América, minha doce terra encontrada!", escreve Mateo Realdo Colombo (ou Mateo Renaldo Colón, como registra a rubrica hispânica) em sua De re anatomica. Não se trata de uma exclamação presunçosa, à guisa de Eureca!, e sim de um lamento, uma paródia amarga dos seus próprios avatares e do próprio infortúnio, projetada sobre a figura do seu xará genovês, Cristóphoro. Um mesmo sobrenome e, quem sabe, um mesmo destino. Eles não eram unidos pelo parentesco, e a morte de um ocorre apenas doze anos após o nascimento do outro. A "América" de Mateo é menos remota e infinitamente mais breve que a de Cristóvão; de fato, ela não excede em muito o tamanho da cabeça de um prego. Mas teve que permanecer em silêncio até a morte do seu descobridor e, apesar da insignificância de suas dimensões, não provocou menos agitação que aquela.

Estamos no Renascimento. O verbo é Descobrir. É o ocaso da pura especulação a priori e dos abusos do silogismo, em benefício da empiria do olhar. É, exatamente, a primavera do olhar. Talvez Francis Bacon na Inglaterra e Campanella na Itália tenham notado que enquanto os escolásticos perdiam-se nos repetidos labirintos do silogismo, o simplório do Rodrigo de Triana, à mesma hora, gritava "Terra!" e, sem saber, precipitava a nova filosofia do olhar. A escolástica - como a Igreja finalmente entendeu - não era muito rentável ou, pelo menos, proporcionava menos utilidades que a venda de indulgências, posto que Deus decidiu pedir dinheiro aos pecadores. A nova ciência é boa desde que sirva para arrecadar ouro. É boa desde que não exceda a verdade das Escrituras, e é melhor ainda tratando-se da escritura de bens. Assim como o sol começava a deter a sua marcha ao redor da Terra - o que não aconteceu, naturalmente, de um dia para o outro -, da mesma maneira a geometria se rebelava contra a planície do papel para colonizar o espaço tridimensional da topologia. Eis o maior trunfo da pintura renascentista: se a natureza está escrita em caracteres matemáticos - como anunciava Galileu -, a pintura haverá de ser a fonte dessa nova noção de natureza. Os afrescos do Vaticano são uma epopéia matemática, como testemunha o abismo conceitual que há entre a Natividade de Lourenço de Mônaco e O triunfo da cruz, que recobrem a abside da Capella della Pietá. Por outro lado, mas por causas semelhantes, não há cartografia que se sustente. Mudam os mapas do céu, os da Terra, os dos corpos. Lá estão os mapas anatômicos, que são as novas cartas de navegação da cirurgia... E então regressamos ao nosso Mateo Colombo.

Estimulado talvez pela homonímia com o almirante genovês, Mateo Colombo decidiu que o seu destino também era descobrir. E lançou-se aos próprios mares. Por certo, suas águas não eram as mesmas que as do xará. Foi o maior explorador anatômico da Itália, e entre os seus descobrimentos mais modestos encontra-se nada mais nada menos que a circulação do sangue, antecipando-se à demonstração do inglês Harvey (De motus cordes et sanguinis), muito embora até mesmo esse descobrimento fosse uma coisa menor em relação à sua "América".

O fato é que Mateo Colombo nunca chegou a publicar o seu achado, fato que ocorreu no mesmo ano da sua morte, em 1559. Era preciso ter cuidado com os Doutores da Igreja; os exemplos proliferam: três anos antes, Lucio Vanini "se fez" queimar pela Inquisição apesar, ou talvez por causa, da sua declaração de que não daria nenhuma opinião sobre a imortalidade da alma até ficar "velho, rico e alemão". E certamente o descobrimento de Mateo Colombo era mais perigoso que a opinião de Lucio Vanini. Sem contar com a aversão que o nosso anatomista sentia pelo fogo e pelo cheiro de carne queimada, sobretudo em se tratando da própria.


O século das mulheres

O século XVI foi o século das mulheres. A semente que Christine de Pisan semeara cem anos antes florescia em toda a Europa com o doce perfume de O ditado dos verdadeiros amantes. Não foi de modo algum casual que o descobrimento de Mateo Colombo tenha eclodido no tempo e no espaço em que se deu. Até o século XVI, a História era narrada pela grave voz masculina. "Onde quer que se olhe, lá está ela com a sua infinita presença: do século XVI ao XVIII, na cena doméstica, econômica, intelectual, pública, conflitual e até mesmo lúdica da sociedade, encontramos a mulher. Em geral, solicitada por suas tarefas cotidianas. Mas também presente nos acontecimentos que constituem, transformam ou dilaceram a sociedade. De cima a baixo da escala social, ela ocupa o conjunto dos espaços, e sobre a sua presença falam constantemente aqueles que a contemplam, amiúde para assustar-se", declaram Natalie Zemón e Arlette Farge em História das mulheres.

O descobrimento de Mateo Colombo surge, precisamente, quando os âmbitos das mulheres - sempre da porta para dentro - começam, pouco a pouco e sutilmente, a sair dos muros dos beatérios e dos monastérios, dos prostíbulos ou da tépida, mas não menos monástica, doçura do lar. A mulher, timidamente, atreve-se a discutir com o homem. Com algum exagero, chegou-se a dizer que no século XVI é travada a "Batalha dos sexos". Verdade ou não, a questão das incumbências das mulheres instala-se como um tema de discussão entre os homens.

Em tais circunstâncias, o que era a "América" de Mateo Colombo? Certamente, o limite entre descoberta e invenção é muito mais difuso do que parece à primeira vista. Mateo Colombo - é hora de dizer - descobriu aquilo com que todo homem sonhou alguma vez: a chave mágica que abre o coração das mulheres, o segredo que governa a misteriosa vontade do amor feminino. Aquilo que, desde o começo da História, foi buscado por bruxos e feiticeiras, xamãs e alquimistas - mediante a infusão de toda sorte de ervas ou o favor de deuses e demônios -, aquilo, enfim, que todo homem apaixonado sempre ansiou, ferido pelo desamor do objeto de seus desvelos e de sua desdita. E também, aliás, aquilo com que os monarcas e governantes sonharam, pela mera ambição da onipotência: o instrumento que subjugasse a volátil vontade feminina. Mateo Colombo buscou, peregrinou e, finalmente, encontrou a sua "doce terra" desejada: "o órgão que governa o amor nas mulheres". O Amor Veneris - tal é o nome com o que o anatomista batizou-o, "se me é permissível dar nomes às coisas por mim descobertas" - constituía um verdadeiro instrumento de potestade sobre o escorregadio - e sempre obscuro - arbítrio feminino. Por certo, tal achado apresentava mais de uma aresta: "Com que calamidades a cristandade não se veria confrontada se as hostes do demônio se apoderassem do feminino objeto do pecado?", perguntavam-se, escandalizados, os Doutores da Igreja. "O que seria do rentável negócio da prostituição se qualquer pobre entrevado pudesse ganhar o amor da mais cara das cortesãs?", perguntavam-se os ricos proprietários dos esplêndidos lupanares de Veneza. Ou, ainda pior, o que aconteceria se as filhas de Eva descobrissem que trazem no meio das pernas as chaves do céu e do inferno?

O descobrimento da "América" de Mateo Colombo foi também - e na sua medida - uma épica cortada pela ladainha de um réquiem. Mateo Colombo foi tão feroz e impiedoso quanto Cristóvão; como aquele - e com a mesma literal propriedade -, foi um colonizador brutal que reclamava para si mesmo o direito sobre as terras descobertas: o corpo da mulher.

Mas, por outro lado, além do que o Amor Veneris significava, uma outra polêmica seria suscitada pelo que era esse órgão. Existirá o órgão que Mateo Colombo descreveu? Esta é uma pergunta inútil que deveria, em todo o caso, ser substituída por outra: Existiu o Amor Veneris? As coisas são, ao fim e ao cabo, as vozes que as nomeiam. Amor Veneris, vel Dulcedo Apeleteur - nome com que o seu descobridor batizou o órgão -, tinha um conteúdo fortemente herético. Se o Amor Veneris coincide com o menos apóstata e mais neutro kleitoris (comichão) - que alude a efeitos antes que a causas -, é um assunto que haverá de preocupar aos historiadores do corpo. O Amor Veneris existiu por razões diferentes das razões da anatomia; existiu não só porque fundou uma nova mulher, mas porque além disso promoveu uma tragédia. O que vem a seguir é a história de um descobrimento.

O que vem a seguir é a crônica de uma tragédia.

Maiores informações com Bárbara ou Mariane
no tel.: (021)542-0248 ou fax (021)275-0294.


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