Posto Nove
Pedaço de mau caminho
Chacal
Rio de Janeiro 76 páginas
Coleção Cantos do Rio
Secretaria Municipal de Cultura e Relume Dumará
11 x 16cm
Posto Nove está para a praia assim como a praia está para a cidade. A praia é o lazer da cidade. O Nove é a onda da praia. A praia é o corpo na cidade. O Nove é a nudez do corpo. A praia é a primavera da cidade. No Nove, o verão se espraia. A praia aquece a cidade. O Nove queima, incendeia. A cidade bebe. O Nove se embriaga. Vocifera e vai embora.
Nos primórdios do Nove, as "indiazinhas saradas" já encantavam os nautas lusitanos e franceses que, depois de semanas ao mar e do cheiro podre dentro dos navios, desciam à terra dançando o vira, emborcando o vinho e cantando hinos de louvor à Iracema. Nos anos 60 e 70, nas dunas do barato, "as grandes cabeleiras serviam para nos identificar e nos disfarçar" e, às vezes, rolava um "quiproquó" da galera com os surfistas - raça pura de Ipanema. Mas o cachimbo sempre passava de mão em mão e a paz voltava. "Pelados no litoral, cada rodinha revivia rituais nativos". Já os anos 90 encontraram a praia poluída, as carrocinhas da Kibon e da Geneal deram lugar aos quiosques do calçadão. Apareceu uma galera mais nova, "mocidade independente que se reúne à noite no Baixo Gávea", e a praia recebeu uma poderosa iluminação que tornou infinito seu tempo útil.
Saudoso, Chacal confessa que "a praia deixou de ser meu lá em casa há um bom tempo. Não é mais como no tempo do Sol Ipanema que já chegava e tinha minha roda". E começa a desfilar lembranças de uma época em que "era urgente ser inteligente" e ele dividia seu tempo entre "momentos em que a praia podia esperar" (passeios pela Cinemateca do MAM e o estudo no André Maurois) e o desbunde do Píer - as dunas de Gal... e de Cazuza, de Baby, de Caetano, de Waly - "a ilha da fantasia encravada na unha do dragão".
Em 74, desmontaram o Píer (onde a informação proibida na mídia circulava subterrânea) e a galera foi em direção à Montenegro. Em 75, o Nove começa o seu reinado, seu destino de inventar moda. E vieram a poesia em mimeógrafos e o teatro, a Nuvem Cigana e o Asdrúbal Trouxe o Trombone, a tanga de Gabeira e o topless, o Circo Voador e o verão da lata, os churrascos na areia e o apitaço. E, embora tudo comece com sol, mar e areia em algum ponto obscuro do litoral carioca, Chacal deixa bem claro: "noves fora nada".
Chacal (Ricardo de Carvalho Duarte), carioca desde 1951, é formado em Editoração e Teoria da Informação pela ECO / UFRJ. Escreveu e editou 11 livros, entre eles Preço da passagem (1972), Quampérius (1977), Drops de Abril (1983) e Letra Elétrika (1994). Foi editor do Almanaque Biotônico Vitalidade, da Nuvem Cigana e, desde 1996, edita a revista O Carioca. É criador, produtor e apresentador do Centro de Experimentação Poética - CEP 20.000.
Maiores informações com Bárbara Anaissi ou Edmo Suassuna no tel./fax (021)564-6869. E-mail: relume@ism.com.br