Diferença e negação na poesia de Fernando Pessoa
José Gil
Poesia 136 páginas
Coleção Conexões
12,5 x 20 cm
Ir e vir de Fernando Pessoa a Gilles Deleuze, de Deleuze a Pessoa, Caeiro, Campos, Reis, Soares, Pessoa..., ir e vir entre a poesia e a filosofia, convergindo as duas (atravessadas de heteronímias) para o mesmo plano de imanência do pensamento no extremo limite de um mesmo projeto: uma modernidade que se afirma pela superação da transcendência metafísica. Definindo o seu livro como "um objeto um tanto estranho", o filósofo português José Gil vai levar os leitores de Diferença e negação na poesia de Fernando Pessoa em uma incursão surpreendente no universo pessoano, marcando os pontos de encontro onde a obra do poeta português se deixa descobrir pelos conceitos de Deleuze – "trazer para o comentário do texto pessoano, instrumentos conceituais deleuzianos".
Porém, mais surpreendente ainda, é ver José Gil iluminando a filosofia de Deleuze com a poesia de Pessoa, capaz, segundo ele, de explicitar processos que Deleuze não deixou bem claros. Como construir o plano da imanência ou como construir um corpo-sem-orgãos? José Gil indica, por exemplo, que esta pergunta está muito melhor respondida na maneira como Álvaro de Campos formula o plano de imanência ou de consistência das sensações (de onde nascerá "o delírio das coisas marítimas"), do que muitas páginas de Mille plateaux.
José Gil deixa claro, no entanto, que o objetivo do seu ensaio não é "Pessoa com Deleuze", mas sim a compreensão da estrutura da heteronímia, a partir de uma questão: por que um mestre (Caeiro)? Por que discípulos dilacerados que não conseguem jamais ser como o mestre? Sob que regime de sensações e de pensamento funcionam respectivamente Caeiro e seus discípulos? Se a imanência da experiência da visão de Caeiro não comporta falhas, como se compreende que os discípulos, que "saíram" do mestre, vivam sob o regime do trágico, da cisão, do desassossego?
Nascido em Moçambique, em 1939, José Gil formou-se em Filosofia em Paris. É professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e ministrou seminários no Collège International de Philosophie. Seu trabalho incide essencialmente sobre a estética e sobre a poética de Fernando Pessoa, tendo uma intervenção freqüente na escrita de arte que se faz em Portugal. Faz também uma investigação sobre o corpo, sobre as transformações que atualmente múltiplos dispositivos estão operando nele, e recorre sobretudo a Gilles Deleuze, encontrando no filósofo uma fonte inesgotável de inspiração.
Em Portugal já publicou: Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações (1987); O espaço interior (1994); Os monstros (1994); A imagem-nua e as pequenas percepções (1996); Metamorfoses do corpo (1998 – 2ª ed.), e os romances A crucificada (1986) e Cemitério dos prazeres (1990).