Leon Hirszman foi um dos fundadores do Cinema Novo, movimento
que começou a se esboçar no início dos anos 60 e se firmou ao
longo daquela década, agrupando jovens diretores que renovaram
temática e artisticamente a produção cinematográfica brasileira. A
interação de Hirszman com esse movimento foi sempre de tal ordem
que hoje, decorridos dez anos de sua morte, ele ainda é lembrado por
seus pares como um elemento aglutinador, ou, nas palavras de Cacá
Diegues, "O maior articulador que o cinema brasileiro já
teve" e um "exemplo de convivência universal",
como proclama Nelson Pereira dos Santos. Esse reconhecimento põe
em relevo características muito especiais desse artista que sempre se
mostrou preocupado em pensar a cultura brasileira e que ao longo de
três décadas transitou pelas diferentes esferas da nossa vida cultural.
Filho de judeus poloneses que emigraram para o Brasil nos anos
30, Leon Hirszman nasceu num subúrbio da Zona Norte do Rio de
Janeiro em 1937. Apaixonado por música popular e pelo cinema
desde garoto, formou-se no entanto em engenharia. Leitor ávido de
novas idéias, passou do socialismo lírico para o marxismo e a
militância comunista. Mas o racionalista, que amava o debate e o
discurso claro e convincente, era também um ser humano apaixonado
e até místico. Essa contradição fez dele um criador de múltiplas faces,
do que dá testemunho sua filmografia, onde se alinham obras A
falecida, Garota de Ipanema, São Bernardo, Eles não usam
black-tie exemplos da melhor ficção cinematográfica, e
documentário como ABC da greve, Partido alto, a série
intitulada Cantos de trabalho, um apanhado da diversidade
musical do Brasil, e, sobretudo, Imagens do inconsciente,
uma trilogia que incursiona pelos universos interiores revelados pelas
atividades artísticas de três freqüentadores do setor de Terapêutica
Ocupacional fundado e dirigido pela Dra. Nise da Silveira no Centro
Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro.
Esta biografia, que restitui
em toda a sua integridade a figura do cineasta Leon Hirszman, é o
resultado de um meticuloso trabalho de pesquisa empreendido pela
jornalista e escritora Helena Salem. Com a experiência adquirida na
elaboração de Nelson Pereira dos Santos: O sonho possível do
cinema brasileiro, já em segunda edição, e de 90 anos de cinema:
uma aventura brasileira, Helena Salem logo se deu conta da
necessidade de fazer o mesmo percurso interdisciplinar do seu
biografado. Daí que, além de consultar o vasto material de imprensa
da época, a bibliografia pertinente e os filmes do diretor, entrevistou
dezenas de interlocutores de Leon Hirszman: diretores de cinema
(Walter Lima Jr, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Eduardo
Escorel, Bernardo Bertolucci, entre outros), atores (Fernanda
Montenegro, Othon Bastos), músicos (Caetano Veloso, Edu Lobo),
fotógrafos (Lauro Escorel, Luís Carlos Saldanha), economistas (Maria
da Conceição Tavares), filósofos (Leandro Konder), psicanalistas (Joel
Birman), psiquiatras (Nise da Silveira), além de familiares e amigos. Os
testemunhos dessas pessoas permitiram à autora matizar a
personalidade e o pensamento desse artista que deixou uma obra
extensa, variada e fascinante. Obra que é estudada com apurado
senso crítico por Helena Salem - o que enriquece extraordinariamente
o seu livro e o torna indispensável para se conhecer um período
importante da cinematografia nacional.