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A Laranjeira
Carlos Fuentes
Romance   216 páginas
Tradução: Carlos Nougué


A extensa obra de Carlos Fuentes se coloca na linhagem dos grandes renovadores da literatura hispano-americana ao lado de Julio Cortázar, Mario Vargas Llhosa, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges. Para o ensaísta e poeta mexicano Octavio Paz, a divisa de Carlos Fuentes poderia ser "diz-me como falas, que te direi quem és". Na escrita de Fuentes está a fala dos indivíduos, das classes sociais, das épocas históricas, das cidades e das paisagens. Seu tema é a linguagem não apenas por ser ela matéria-prima da literatura mas sobretudo, porque com ela se constróem a memória e o desejo.

Com A laranjeira Carlos Fuentes fecha o ciclo narrativo por ele denominado "A idade do tempo". E encerra-o de forma magistral. O livro compõem-se de cinco novelas curtas e interligadas, em que Carlos Fuentes joga com diversos mitos - o conquistador conquistado, a atemporalidade da história - e recorre aos temas típicos de sua literatura ímpar. A árvore da laranja é, portanto, não apenas o fio condutor das novelas mas também uma síntese da obra do autor.

Fuentes justifica a escolha da laranjeira como tema: "É quase o protótipo de uma imagem do mundo espanhol. As laranjas e a Espanha caminham juntas. A fruta veio da Índia para a Espanha, e então Cortez a trouxe para o Novo Mundo. Daí seguiu para a Califórnia e Flórida iniciando toda uma indústria. É uma árvore migratória, uma testemunha natural da História."

Símbolo da fertilidade, da mestiçagem e da nova vida em outras terras, a laranjeira representa a recordação do colo materno, da redondeza do universo e, a partir de fatos históricos concretos (como a conquista do México e o cerco de Numância), da condição circular do tempo. Segundo as palavras do autor: "Em A laranjeira se reúnem meus mais imediatos prazeres sensuais - olho, toco, mordo, engulo -, mas também a sensação mais antiga: minha mãe, as babás, os seios, a esfera, o mundo, o óvulo..."

As cinco novelas de A laranjeira

As duas margens

Narrativa post-mortem de um espanhol que participou da Conquista da América como língua (intérprete castelhano-náuatle) de Hernán Cortés, é na verdade amargo balanço da grande empresa marítima. Por ela desfilam os ardis com que os conquistadores enredaram os astecas, a ingenuidade destes ante o desconhecido, particularmente o cavalo, o papel ambíguo desempenhado pela amante de Cortés, La Malinche, e a destruição de uma cultura rica e secular. "Vi tudo isto", diz do túmulo o narrador, pois que sua língua está sulcada pela memória e pelo desejo. As palavras "não cicatrizam".

Os filhos do conquistador

Longo diálogo ferino e rancoroso entre dois filhos de Hernán Cortés, Martín II, com a espanhola Juana de Zúñiga, e Martín I, com a índia Malinche. Em meio às farpas que se dirigem um ao outro neste autêntico combate verbal, surgem as contradições da Conquista, as traições da Coroa a Cortés, o auge e declínio dos filhos de espanhóis nascidos na América, o espetáculo da morte e o sentimento de nostalgia de um país que não chegou a nascer. Ambos os filhos acabam desterrados do México numa Espanha que não os considera espanhóis.

As duas Numâncias

Recriação da conquista de Numância, o último bastião ibérico a cair nas mãos dos exércitos romanos, após muitos anos de tenaz resistência. Ressaltando o papel da fábula e do sonho na concretude histórica, esta narrativa tensa descreve pormenorizadamente a conquista dos celtiberos por nação, Roma, igualmente rude e bárbara, muito distante do refinamento grego. "Nós", os conquistadores, "vimos a queda de Cartago e a destruição de Numância. Foram recordações gloriosas. Mas apenas adiaram nossa própria derrota."

Apolo e as putas

Ator norte-americano de filmes B, em crise conjugal e profissional, decide dar-se férias em Acapulco. Entrega-se a orgia num caíque com sete prostitutas (as sete anãs) e sua cafetina (Branca de Neve), no qual, após dura tormenta em alto-mar, morre e pode perceber, em meio à deterioração, a verdadeira alma dessas mulheres, do México. Mas não o próprio rosto, a própria "máscara". Não sabe que coisa ou quem representa - fechou os olhos "para sempre".

As duas Américas

Cristóvão Colombo, após viver muitos anos na paradisíaca ilha de Antilha em convívio fraterno e ocioso com os índios, recebe a inesperada visita - numa "ave metálica" - de alto diretor de uma grande companhia japonesa, que pretende transformar o recanto americano em grande centro turístico. O conquistador genovês, depois de certa resistência, acaba por tornar-se parte da nova empresa, mas logo é por ela punido - tem de retornar à Espanha, onde por certo plantará de novo a semente da laranjeira.

Sobre o autor: Escritor e diplomata, Carlos Fuentes nasceu no México em 1928. Considerado um dos mais importantes autores contemporâneos, Fuentes recebeu, entre outros, o Prêmio Miguel de Cervantes, na Espanha; o Prêmio Nacional de Linguística e Literatura, no México; e o Rómulo Galegos na Venezuela. De Carlos Fuentes a editora Rocco já publicou A morte de Artêmio Cruz, Eu e os outros, Cristóvão Nonato e A campanha.

A laranjeira é mais uma obra extraordinária desse que, com Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo, Jorge Luis Borges e outros, revolucionou a literatura hispano-americana e a projetou mundialmente.

Cronologia

1928 - Carlos Fuentes nasce, em 11 de novembro, na Cidade do Panamá.

1929-34 - Vive na Cidade do Panamá, em Quito, em Montevidéu e no Rio de Janeiro, cidades onde o pai, diplomata, ocupa vários postos.

1934-40 - Vive em Washington, D.C.

1940-44 - Vive em Santiago do Chile e em Buenos Aires. Publica os primeiros artigos e relatos curtos no Boletín del Instituto Nacional de Chile.

1944 - Vai para o México, país de sua nacionalidade.

1947-49 - Publica alguns relatos curtos nas revistas Mañana e Ideas de México.

1949 - Começa a estudar direito na Universidad Nacional Autónoma de México.

1950 - Completa os estudos profissionais no Institut des Hautes Études de Ginebra. Torna-se secretário da delegação mexicana na Comissão Internacional de Direito das Nações Unidas, ainda em Genebra.

1951 - Integra a delegação mexicana na Organização Internacional do Trabalho, em Genebra.

1952 - Ocupa o cargo de secretário de imprensa do Centro de Informação das Nações Unidas na Cidade do México.

1953 - Colabora na edição da revista Universidad de México. Desta data até 1956, ocupa o cargo de diretor assistente da Divisão Cultural da Universidad Nacional Autónoma de México.

1954 - Publica o primeiro livro, Los días enmascarados, de contos curtos. Começa a escrever artigos sobre literatura, outras artes e política em jornais e revistas do México e de outros países. Trabalha como secretário de imprensa do Ministério de Relações Exteriores do México.

1955 - Funda e edita, com os escritores Emmanuel Carballo e Octavio Paz, a Revista Mexicana de Literatura.

1956 - Dirige até 1959 o Departamento de Relações Culturais do Ministério de Relações Exteriores do México. Torna-se membro do Centro Mexicano de Escritores.

1957 - Publica o primeiro romance: La región más transparente.

1959 - Publica o romance curto Las buenas conciencias. Casa-se com a atriz Rita Macedo, deixa o serviço diplomático, e viaja para Cuba imediatamente após a vitória da Revolução. Funda e co-edita, com Víctor Flores Olea, Enrique Gonzáles Pedrero e outros, a revista El Espectador.

1960 - Aparece a primeira tradução em inglês de La región más transparente. É jurado do prêmio literário Casa de las Américas, em Havana.

1961 - Viaja para Cuba como delegado do Congreso para la Solidaridad con Cuba.

1962 - Publica os romances A morte de Artemio Cruz e Aura. Nasce Cecilia, sua filha.

1963 - Participa da Conferência de Países Não-Alinhados, em Belgrado.

1964 - Publica o livro de contos Cantar de ciegos.

1965-66 - Colabora na fundação da editora Siglo XXI. Reside em Paris.

1967 - Publica os romances Zona sagrada e Cambio de piel. Este recebe o Premio Biblioteca Breve da editora Seix Barral, de Barcelona. Membro do júri do Festival de Veneza.

1968 - Vive em Londres e em Paris. Publica os ensaios París, la revolución de mayo e Líneas para Adami. Visita a Checoslováquia com Julio Cortázar e Gabriel García Márquez. Colabora com François Reichenbach no filme México, México.

1969 - Volta para o México. Publica o romance Cumpleaños e o ensaio El mundo de José Luis Cuevas. Divorcia-se de Rita Macedo.

1970 - Publica a peça teatral El tuerto es el rey, estreada no Beethoven Festival de Viena com direção de Jorge Lavelli e interpretada por María Casares e Sammy Frei.

1971 - Publica o livro Casa con dos portas, conjunto de ensaios sobre Austen, Melville, Faulkner, Buñuel, Genet e outros. Aparece sua segunda peça teatral: Todos los gatos son pardos. Morre seu pai. É publicado o livro Los reinos originarios, com suas duas peças teatrais.

1972 - Publica o livro de escritos políticos Tiempo mexicano. É nomeado membro permanente do Colegio Nacional de México. Cobre para a televisão mexicana a Convenção Democrata, em Miami.

1973 - Casa-se com a jornalista Sylvia Lemus. Nasce Carlos, seu filho. Participa da homenagem a Pablo Neruda em Nova York.

1974 - Membro do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington, D.C. Nasce Natascha, sua filha. É nomeado embaixador do México na França, função que exercerá até 1977.

1975 - Publica o romance Terra Nostra, que recebe no México o prêmio Javier Villaurrutia. Participa como delegado da Conferência sobre Ciência e Desenvolvimento, na Iugoslávia.

1976 - Publica o ensaio Cervantes o la crítica de la lectura. Dirige a delegação mexicana na Conferência para a Cooperação Econômica (Diálogo Norte-Sul).

1977 - Recebe o prêmio Rómulo Gallegos, em Caracas, pelo romance Terra Nostra. Renuncia ao cargo de embaixador na França. Deste ano até 1982, visita numerosas universidades como professor e ledor, entre elas as da Pennsylvania, de Columbia, de Cambridge, de Princeton e de Harvard. É membro do júri do Festival de Cannes.

1978 - Vive em Princeton. Publica o romance La cabeza de la hidra.

1979 - Recebe, no México, o prêmio Alfonso Reyes pelo conjunto de sua obra.

1980 - Publica o romance Una familia lejana.

1981 - Publica o romance Agua quemada.

1982 - Lança a peça teatral Orquídeas a la luz de la luna, com estréia no Loeb Drama Center, de Cambridge, Masssachusetts; em junho, esta peça é representada pelo American Repertory Theater, com direção de Joanne Green e interpretada por Rosalind Cash, Hellen Holly e Frank Licatto.

1984 - Recebe o Premio Nacional de Literatura de México.

1985 - Publica o romance Gringo Velho, e lança, em inglês, o ensaio Latin America: At War with the Past.

1986 - Vive na Inglaterra como catedrático Simón Bolívar na Universidade de Cambridge. Publica o romance Cristóvão Nonato e, em inglês, a coleção de ensaios Myself with Others.

1987 - Recebe o Premio Miguel de Carvantes. Inaugura a cátedra Robert F. Kennedy na Universidade de Harvard.

1988 - Começam as filmagens de Gringo Velho, com Jane Fonda e Gregory Peck. Recebe a Orden de Rubén Darío, na Nicarágua, e a medalha do Clube Nacional das Artes, em Nova York.

1989-96 - Publica os romances A campanha, Diana ou a caçadora solitária, La novia muerta, El Baile del Centenario e A laranjeira.



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