Durante quatro anos, o historiador Marcos Luiz Bretas dedicou-se a
analisar os livros de registro de ocorrências de sete distritos policiais
do Rio de Janeiro, compreendendo o período de 1907 a 1930. A
pesquisa serviu de base para sua tese de doutorado em Filosofia,
junto ao Departamento de História da Faculdade de Artes da Open
University, na Inglaterra, que a Rocco lança agora com o título Ordem
na cidade.
O foco da tese é a cidade do prefeito Pereira Passos,
depois de 1904, quando a intenção era dotar o país de uma capital à
altura dos principais centros urbanos da época. Nos primeiros anos da
reforma urbana, o papel da polícia cresceu consideravelmente, a fim
de controlar a massa de trabalhadores pobres.
Os livros de
registro de ocorrências das delegacias eram utilizados para
documentar tudo o que fosse levado ao conhecimento dos
comissários, para informação ao delegado do distrito. São, portanto, a
principal fonte para o estudo da cultura policial. E foi isso que Bretas
procurou entender: a maneira como os policiais pensavam - e pensam
- e a visão que eles têm do mundo, a partir do que ocorre nas
delegacias. Para compreender como as forças policiais
desenvolveram seus procedimentos, o autor analisou sua ação como
um dos principais elementos de ligação entre o estado (e as elites
dominantes) e os cidadãos.
No decorrer da pesquisa, o
historiador verificou que tanto a PM quanto a Polícia Civil pouco
evoluiram do início do século até agora. O relacionamento entre a
polícia e o público continua permeado pela violência, pelo medo e,
talvez, por uma deferência concedida a contragosto. Os recursos das
forças policiais eram - e continuam sendo - necessariamente limitados,
obrigando os policiais a selecionar as ocorrências que deviam - e
devem - ser rotuladas como crimes.
Bretas aponta a polícia como
um excelente exemplo de um órgão público da era moderna. Ela
surgiu a partir do estado absolutista para um papel essencial no
estado contemporâneo. No entanto, é excluída da maior parte das
histórias políticas ou de estudos sobre o estado. "Durante um
longo período da história brasileira, a polícia não parecia ser um
objeto relevante ou possível para as ciências humanas. O assunto
tornou-se mais importante a partir da década de 70, não só porque
sua relevância passou a ser internacionalmente reconhecida, como
também pelo fato de ter adquirido uma premente pertinência no meio
urbano em rápido processo de deterioração das grandes cidades
brasileiras", afirma o historiador.
Segundo ele, colocar o
comportamento arbitrário da polícia carioca em perspectiva histórica
obriga os historiadores a explicar as razões da longevidade sem
contestações de um sistema baseado no abuso de poder. Bretas
aceita o desafio e ajuda a clarear um tema tão comentado e, ao
mesmo tempo, polêmico.
Sobre o autor: Marcos Luiz Bretas,
carioca, 38 anos, professor do Departamento de História da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, é especialista no estudo do
aparato policial do Rio de Janeiro. Em mais de 13 anos de pesquisas
sobre a polícia, fez teses de mestrado, no Iuperj, e de doutorado, na
Open University da Inglaterra. Foi professor da Universidade Santa
Úrsula, de 1987 a 1996 e pesquisador da Casa de Rui Barbosa. Em
1995, obteve destaque no Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, com
sua tese de mestrado intitulada A guerra das ruas: povo e polícia da
cidade do Rio de Janeiro.