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Aquidauana
e outras histórias sem rumo
Mauro Pinheiro
Contos   100 páginas


Mauro Pinheiro fez sua estréia na literatura em 1993, com Cemitério de navios, romance em que o personagem principal embarca numa viagem sem planejamento algum em busca de Ivo, um easy rider que, ao que tudo indica, é seu pai, e acabou de morrer em algum lugar pelo Norte ou Nordeste do Brasil.

Com a publicação apoiada por Antônio Houaiss, que assina o texto da orelha do livro, Cemitério de navios foi muito bem acolhido pela crítica, e fez com que Mauro Pinheiro figurasse ao lado de João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Lygia Fagundes Telles, entre outros, no livro Paradoxos do pós-moderno: sujeito e ficção - em que Nízia Villaça investiga configurações da subjetividade contemporânea através da literatura brasileira.

Em Aquidauana e outras histórias sem rumo Mauro Pinheiro retoma a estrada para narrar viagens de apostas e angústias. As descobertas da primeira viagem para uma criança, a viagem-fuga de um homem entediado, a viagem sem destino e sem dinheiro, e as viagens de caronas insólitas, de compromissos escusos, e de grandes buscas existenciais são algumas das experiências registradas nos contos.

Num estilo semelhante ao do escritor minimalista Raymond Carver, autor de Short Cuts - cenas da vida, os contos de Aquidauana não são histórias que se concluem, mas, na verdade, recortes interessantes de histórias banais. Às vezes elas são retomadas por outro enfoque, num conto mais adiante. Os personagens reaparecem, interagindo, ou apenas esbarrando pelas estradas com o novo protagonista, de forma que as histórias se entrelaçam, sugerindo uma estrutura de "romance de hipertexto" mais do que uma simples reunião de contos.

Aquidauana sedimenta o estilo seco, realista e extremamente visual de Mauro Pinheiro, que exprime de forma rara na literatura uma sensibilidade eminentemente masculina. Com este segundo livro também fica patente o quanto suas impressões e seu fascínio pela estrada são elaborados através de seus personagens e suas histórias, produzindo uma obra sincera e vigorosa.

Mauro Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro. Morou no subúrbio até os dezessete anos, quando decidiu intervir no destino que lhe parecia óbvio, e botou o pé na estrada. Viajou pelo Brasil durante três anos, vivendo de bicos e da solidariedade dos amigos que fez. Em 1978, saiu do país. Morou no Iraque, Inglaterra, França e Bélgica. Trabalhou como intérprete, clandestino, criou cabras, cortou lenha e, entre uma coisa e outra, começou a escrever seu primeiro romance. Desde 1990 mora no Rio.

ENTREVISTA COM MAURO PINHEIRO

Em Aquidauana, como em Cemitério de navios, você escreve sobre experiências de viagem pelo Brasil. Por que retomar o tema ?

Eu passei boa parte da vida nas estradas, é natural que minhas histórias sejam impregnadas de viagens. Com dezessete anos me desiludi com o vestibular. Passei uns três anos viajando pelo Brasil. Depois, mais dez anos no exterior. Talvez eu use as estradas para falar das coisas que me emocionam, como a amizade, os encontros e desencontros entre os seres - coisas que não acontecem unicamente nelas, mas que eu pude experimentar através delas.

Você fez todas as viagens do livro? Os tipos que conheceu viraram personagens de fato, ou é tudo ficção?

Eu escrevo sobre alguns lugares onde realmente estive, mas também escrevo sobre lugares onde nunca fui, que é uma outra maneira de os visitar. Conheci também muitos tipos humanos que vieram a compor certos personagens dos meus livros, mas às vezes os personagens são mais fortes e acabam ganhando contornos inesperados. É sempre muito tênue a fronteira entre a realidade e a ficção. Quando vemos um acidente acontecer na nossa frente, isso é realidade; quando o narramos mais tarde para alguém, de certa forma, isso já é ficção.

Fazer alguns entrelaces nas histórias era uma concepção inicial do projeto do livro? Ao escrever determinado conto você já sabia que nele os personagens x e y iriam se cruzar, ou era ocasional ?

Não, inicialmente, até a terceira história talvez, não havia essa intenção. Aos poucos, esses entrelaçamentos foram surgindo. Então passei a provocar alguns, outros eu simplesmente aceitei. Tenho a impressão que cada livro me reserva uma surpresa ao escrevê-lo, como se em determinado momento eu conseguisse lhe dar vida própria e, a partir daí, passássemos a ter uma relação de cumplicidade, e não mais de criador e criação.

O último conto do livro, que também se chama Aquidauana, é muito curioso, porque é o único em que os personagens "ganham vida própria" e tentam se rebelar contra a vontade do autor. Por quê ?

A última história funciona um pouco como um estuário, uma catarse, um motim no qual os personagens questionam e encaram os desmandos do autor. Assim como alguns outros, este não estava preconcebido na minha cabeça. Eu escrevia e deixava a história tomar seu rumo. De repente, me interessei pela mediocridade dos figurantes do universo literário, e pelos "bastidores" da literatura. Me deixei escrever sobre essas coisas, e me surpreendi com a autonomia que aquilo tinha. Nunca tinha me dado esse tipo de liberdade na escrita, mas deixei rolar porque me diverti muito - o que é raro quando escrevo.

Alguns contos do livro dão a impressão de ser extratos de histórias que continuam, isto é, os contos terminam sem esgotá-las. Qual foi sua intenção?

Eu acho que o conto é sempre parte de uma história maior. Tem contos que se fecham em si mesmos, e contos que se abrem a novas interpretações. Nesse sentido, não considero o Aquidauana exatamente uma coletânea de contos, seria mais um romance, ou fragmentos dispersos de um romance que só a leitura, o imaginário do leitor, pode completar.

Como em seu primeiro livro, Cemitério de navios, os contos de Aquidauana - exceto "Nas rebarbas do mundaréu"- são protagonizados por personagens masculinos, quase sempre narrados em primeira pessoa; e as histórias, calcadas nas observações destes personagens, muito mais do que em tramas mirabolantes.

Você se alinha com a concepção do escritor Paul Auster, por exemplo, que diz que escreve melhor e com mais interesse sobre suas próprias experiências e sobre a realidade que o cerca?

Sim, acho que também prefiro escrever sobre o que conheço ou o que me acontece. Essa é a minha matéria-prima, mas acredito que escrever exatamente o que eu vivi não é tão interessante e nem é o que pretendo. Interessante é poder utilizar minhas observações, impressões e afetos, para reconfigurá-los com a liberdade da ficção. A questão para mim não é o narrador ser masculino ou feminino, o que me fascina é a alternância de uma narrativa em primeira ou terceira pessoa, "eu" e o "outro", ou simplesmente "os outros" e eu, narrador invisível e ubíquo.

Quais são suas influências culturais?

Bem ou mal, tudo influencia. Entre as influências que me são ou foram mais importantes posso citar, na literatura: João Antônio, Plínio Marcos, seu lado contista, como no livro Nas quebradas do mundaréu (que inspirou o título de um dos textos de Aquidauana), o poeta Jorge Luís Nascimento, que ainda não publicou nada mas me influencia culturalmente há mais de vinte anos. Sérgio Sant'Anna e João Gilberto Noll, apesar de não haver muita semelhança entre nossos trabalhos. Cito ainda Daniel Odier, um suíço ainda não editado no Brasil, Julio Cortazar, Céline, John dos Passos, Kerouac, Roland Barthes e William Burroughs. Na música tem o Sérgio Sampaio, que me marcou muito e, mais recentemente, Arnaldo Antunes e Chico Science e a Nação Zumbi. No cinema, gosto do Ang Lee, Jim Jarmursh, Louis Malle, Alain Resnais, Kieslovsky, e Ricardo Favilla, com quem escrevi um roteiro para o Cemitério de navios, e que me ensinou um bocado sobre cinema.

Você já pensa num próximo livro?

Já tenho um romance bem adiantado. Deve ficar pronto até o fim do ano. Também aborda as viagens, mas do ponto de vista daquele que permanece, que vê os outros partirem. Desta vez acho que não haverá estradas. O título provisório é Beco.

MAQUETES DO CAOS

por Waly Salomão

Por sua prosa tensa e porosa, Cemitério de navios atraiu minha atenção. Um romance com gosto pelo fragmento, pelo pequeno capítulo, pelas pinceladas sintéticas. Com a maestria herdada de Oswald de Andrade, Mauro Pinheiro deslizava, cheio de sabor e perícia, pelo universo dos espatifados. Sem posar de Samuel Beckett rastaqüera tupiniquim.

O livro saiu do limbo de forma inusitada, pois o desconhecido Mauro rompeu o cordão de isolamento e entregou os originais para o então Ministro da Cultura Antônio Houaiss, que realizou seu papel de mula e entregou a muamba ao editor Paulo Rocco. E o melhor de tudo: a muamba não era malhada. Cemitério de navios, prosa da mais alta qualidade em que o cabeça feita Mauro Pinheiro mostrava que não era calouro, pois sabia pesar o lastro dos vapores baratos e dos velhos navios com imagens brutalistas, retratos de lambe-lambe, 3X4 dos excluídos. Uma parada oposta ao discurso triunfalista dominante.

Agora seus admiradores recebem uma outra dose: seu livro intitulado Aquidauana é composto de breves e modelares estórias. Sagas de descoladores, semimundos abandonados, personagens sem identidade definida em cidades fronteiriças, fraternidades casuais, ligações efêmeras, ansiosa solicitude de remodelação da família humana, "fiquei pensando se não estava aos poucos reconstruindo uma família que nunca existira. Inventando um irmão que nunca tivera". Pequenos golpistas, elenco de desenraizados, trabalhos sujos, paradas perigosas. Caronas, carretas e caminhonetes. Mas o personagem principal é, indiscutivelmente, a estrada, a grande teia que enreda toda esta fauna de escroques e boas-praças e, afinal, no conto que dá título ao livro, aprisiona o próprio narrador e libera a narrativa.

O vigor sangüíneo dos escritos de Mauro Pinheiro sabe que a máquina sem defeito de fábrica é sem sedução para o escritor e, por tabela, para seu leitor. Construindo obras-primas como o conto "Viagem a São Paulo", incluído em Aquidauana, Mauro Pinheiro com suas maquetes do caos é um Chico Science da nova prosa nacional.



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