"... a senhorita me diz, com um sorriso: Oh, Dr. Shawmut, com
esse boné, parece um arqueólogo. Antes de ter tempo para pensar,
respondo: E a senhora parece uma coisa que acabou de ser
desenterrada. Horrível!"
A piada é dita por um dos
personagens deste livro de contos do consagrado Saul Bellow. Ela
corre o campus da universidade onde os interlocutores trabalham,
provocando risos. Acaba causando também uma sincera crise de
remorso e depressão no autor da maldade, um judeu pedante, que
luta para se libertar de sua origem vulgar.
O primeiro conto, que
dá nome ao livro, é uma carta do Dr. Shawmut à gentil senhorita
Rose, a bibliotecária alvo de sua chacota. Muitos anos depois da
piada, exilado por razões legais, ele se penitencia e passa em revista
toda sua vida. Uma torrente de divagações e revelações de um
homem velho e em crise. Aliás, esse é o forte de Bellow.
Os
personagens de suas histórias são imigrantes, comerciantes, famílias
simples de bairros de classe média de Chicago, como ele próprio,
Bellow, filho de judeus russos que imigraram para os Estados Unidos.
E com freqüência encontram-se em crise, seja existencial, intelectual,
financeira ou amorosa.
Assim como em seus romances, nos cinco
contos de Trocando os pés pelas mãos o mais importante não é o
enredo, mas sim a riqueza do texto, muitas vezes sobre coisas banais,
como o caso de um casalzinho judeu que sai do interior para tentar a
vida em Nova Iorque, contra a vontade do pai do rapaz. Ao final de
uma história de percalços, tudo acaba bem.
O anticlimax é uma
característica de todos os contos - Trocando os pés pelas mãos,
Como foi o seu dia?, Zetland: por uma testemunha de caráter, Uma
travessa de prata e Primos - . Mas, quem se dá conta disso? Diante
da narrativa inteligente e rica de Bellow, momentos de suspense e
tensão tornam-se completamente desnecessários.
p e r f i l
Saul Bellow, 82 anos, nasceu em Quebec, no Canadá, mas foi
criado em Chicago (EUA). É considerado o maior escritor vivo de
língua inglesa. Formado em antropologia, recebeu o grau honorário
das Universidades de Harvard e de Yale no mesmo ano. Prêmio
Nobel de Literatura de 1976, ganhou mais prêmios e honrarias do que
qualquer outro de seus contemporâneos. Escreveu seu primeiro
romance aos 20 anos de idade. Suas obras mais conhecidas são: As
aventuras de Augie March, O legado de Humboldt, O planeta do Sr.
Sammier, Herzog, Dezembro fatal e Tudo faz sentido, os dois últimos
também editados pela Rocco.