Lygia Fagundes Telles retoma, em seu 17° livro, o gênero do conto,
com o qual iniciou a sua carreira, e mergulha na condição humana
reunindo nove histórias escritas e reescritas ao longo de quatro anos
de trabalho e que vêm honrar a tradição de uma das grandes damas
da literatura brasileira.
A noite escura e mais eu está sendo
relançado pela Rocco, minuciosamente revisado pela própria autora e
com novo design gráfico.
Com seu jeito genuíno e único de
escrever, Lygia volta a temas recorrentes de sua obra, como a morte,
a solidão, o amor, a velhice, envolvendo-nos em um mundo riquíssimo
em experiências humanas, povoado por anjos e demônios, angústias
e alegrias, medos, ilusões e desilusões. A autora está de volta ao seu
leque de perplexidades, e suas personagens, aqui, são garotinhas,
cachorros, anões, que espiam os homens e suas extravagâncias.
Esse universo misterioso das histórias de Lygia pode ser observado e
sentido logo no primeiro conto, "Dolly", ambientado nos
anos 20. A personagem é uma moça na faixa dos vinte anos que
queria ser artista de cinema mudo. O conto é narrado por Adelaide, da
mesma idade, mas de personalidade ingênua e conservadora, com
quem Dolly quer dividir a moradia enquanto não alcançava as luzes
da ribalta. Adelaide encontra o cadáver de Dolly violentada depois de
uma noite de farra e suja suas luvas de sangue ficando,
aparentemente, apavorada.
Personagens em crise diante da
velhice são apresentados no conto "Boa noite, Maria", que
enfoca o amor de uma mulher de sessenta e cinco anos por um
homem de cinqüenta. É um conto sobre um possível direito à
eutanásia, sobre o horror da decomposição e a fuga da morte como
aviltamento. A solidão é o pano de fundo dessa história, a mesma
solidão que permeia quase todas as personagens deste livro que, a
exemplo dos anteriores da autora, traz enredos ambíguos que às
vezes se aproximam do realismo fantástico.
Em "Anões de
jardim", um dos melhores da coletânea, o narrador é um ser de
pedra que tem alma e quer sobreviver à demolição da casa cujo
jardim habita. Fala de uma perseguição à imortalidade, de uma
continuação da vida em qualquer forma, mesmo a mais vil. Nos outros
contos, a autora desliza em verdadeiros instantâneos das relações
humanas, como o da mãe à beira do túmulo da filha tentando
compreender como ela foi capaz de ter como amante uma outra
mulher. Ou a história de Kori, mulher rica e infeliz no casamento, que
vai para a cama com o homem que ela sabe que é apaixonado pelo
seu marido.
Lygia aposta no absurdo, mantém seu estilo intimista
em suas reflexões sobre as fraquezas humanas nesses nove contos
de mistério e paixão de A noite escura e mais eu, cujo título
nasceu de um poema de Cecília Meirelles: " Ninguém abra a sua
porta/ pra ver o que aconteceu:/ saímos de braço dado/ a noite
escura e mais eu."
Sobre a autora
Lygia Fagundes Telles
nasceu e vive em São Paulo. Formou-se em Direito na USP e também
fez o curso na Escola Superior de Educação Física, da mesma
universidade. É membro da Academia Brasileira de Letras.