Obra indispensável para cinéfilos, Napoleão, de Nelly Kaplan,
narra a história da produção da obra-prima do cineasta francês Abel
Gance, desde as primeiras anotações, dez anos antes da realização
do filme, sobre uma das mais controvertidas e importantes
personagens da História da França, até as infindáveis remontagens
do clássico que estreou em Paris, com grande sucesso, em abril de
1927.
Napoleão faz parte da série Clássicos BFI (British Film
Institute), que reúne 360 filmes fundamentais para a história do
cinema. Para cada filme foi editado um livro com impressões pessoais
de seu autor, sempre um renomado crítico, acadêmico, cineasta,
romancista ou historiador, incluindo detalhes da produção, filmografia,
notas e bibliografia. A Editora Rocco está publicando a série no Brasil
como parte de sua coleção ArteMídia, acrescentando à seleção
britânica alguns marcos do cinema brasileiro.
Para escrever
Napoleão, Nelly Kaplan usou documentos raros e até então inéditos
sobre a obra do cineasta, muitos deles reproduzidos em fac-símile. O
livro é mais saboroso para quem viu o filme de Gance, mas, até por
tratar-se de uma obra rara e de difícil acesso, a autora faz um breve
resumo da versão de 1927, introduzindo o leitor no universo do
cineasta. Essa versão, aliás, sequer existe. Algumas seqüências foram
perdidas e muitas passagens do roteiro original nunca foram filmadas.
Após seu lançamento, o próprio Gance alterou Napoleão pelo menos
umas vinte vezes. Tanta inquietação era própria do espírito do
cineasta, que morreu em 1981, aos 92 anos.
O livro de Nelly
é fascinante por revelar, em detalhes, o estilo de trabalho de Gance.
Mostra como ele era minucioso em seus roteiros, descrevendo cada
cena detalhadamente. Apresenta sua visão do que deve ser o cinema
e os diversos inventos que anteciparam, em algumas décadas,
processos de filmagem que se tornariam comuns anos depois. Gance
era um cineasta apaixonado pela força da imagem. Em uma nota
reproduzida por Nelly em seu livro, o cineasta diz: "Pensar o
tempo quase todo somente no prazer do olho." Ela reproduz
também outro texto de Gance sobre como ele queria que o público
visse Napoleão: "Pela primeira vez o público não deve ser
espectador como sempre é quando contempla quadros, mas ator,
como é na vida — sofrer com os feridos, combater com os soldados,
estar no comando com os oficiais."
Para conseguir
esse efeito, Nelly conta que Gance usava a câmera como elemento
dramático. A descrição da cena do fuzilamento, com a câmera caindo
ao chão como se fossem os olhos de uma das vítimas, é um exemplo.
Ele também criou alguns efeitos surpreendentes para a época, como
o uso de imagens superpostas para cenas de ação frenética e a
expansão da imagem, com o uso sincronizado de três câmeras para
três projetores exibindo uma cena panorâmica em três telas, uma ao
lado da outra. E o som estéreo, que apareceria muitos anos depois
nas superproduções hollywoodianas, também foi antecipado por
Gance, que deu o nome de perspectiva sonora ao uso de diversos
alto-falantes espalhados pelo auditório, emitindo sons em conjunto ou
seletivamente, dando ao espectador a sensação de total ubiqüidade.
Quando se chega ao fim do livro, conclui-se que Abel Gance é, sem
dúvida, como Nelly Kaplan diz, "um dos maiores visionários da
Sétima Arte."
Sobre a autora:
Diretora de cinema, roteirista e escritora, Nelly Kaplan nasceu na
Argentina, onde estudou Economia na Universidade de Buenos Aires.
Após mudar-se para Paris, conheceu Abel Gance em 1954, tendo
sido sua íntima colaboradora até 1964, atuando na elaboração de
textos teóricos e como diretora da segunda unidade dos últimos filmes
do cineasta. O livro lançado pela Rocco foi traduzido da versão em
inglês, adaptada e compilada do original francês por Bernard McGuirk
para a série BFI, do British Film Institute.