Os 13 contos de A legião estrangeira abordam o cotidiano
familiar, a perversidade infantil e a solidão. Como apontou o escritor
Affonso Romano de Sant’Anna na introdução de uma antiga edição
do livro, para Clarice Lispector importa mais a geografia interior.
"Ao invés de tipos épicos e dramáticos, temos figuras situadas
numa aura de mistério, vivendo relações profundas dentro do mais
ordinário cotidiano", escreveu. "Mais do que as aventuras,
interessa-se por descrever a solidão dos homens diante dos animais e
objetos."
Entre os contos destaca-se "Viagem a
Petrópolis", escrito quando Clarice tinha apenas 14 anos. Neste,
a precoce escritora narra a absurda solidão de uma velhinha que, sem
lugar para morar, é empurrada de uma casa para outra. E o leitor
perceberá em "Os desastres de Sofia" uma história de
transparente sensibilidade, em que a autora aborda a perversidade
infantil por meio do relacionamento de uma aluna com seu
professor.
A vulnerabilidade dos animais diante dos homens,
e vice-versa, está presente em "A quinta história",
"Macacos" e ainda em "A legião estrangeira".
Como também apontou Affonso Romano de Sant’Anna, a tensão nos
contos de Clarice surge da oposição Eu X Outro, que pode ser um
animal, uma criança ou uma coisa. "Dessa tensão é que surge a
epifania, a revelação de uma certa verdade."
A
legião estrangeira, como os demais títulos de Clarice Lispector
relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento gráfico e passou
por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em crítica textual
Marlene Gomes Mendes, baseada em sua primeira edição, de
1964.
Sobre a autora:
Clarice
Lispector nasceu em 1920, na Ucrânia. Chegou ao Brasil com os pais
e duas irmãs em 1922. Sua família residiu primeiramente em Maceió e
depois em Recife, onde Clarice passou a infância. Perdeu a mãe em
1930 e, três anos depois, seu pai mudou-se com as filhas para o Rio
de Janeiro.
Em 1943, Clarice iniciou sua carreira literária com
Perto do coração selvagem, que acabou projetando seu nome
entre os escritores da Geração de 45. A autora lança, em 1960,
Laços de família, seu primeiro livro de contos. A Hora da
estrela, de 1977, foi seu último romance publicado em vida.
Clarice morreu de câncer, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia
antes de completar 57 anos.