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A razão gulosa
Filosofia do gosto
Michel Onfray
Ensaio   204 páginas
Tradutora: Ana Maria Scherer
ISBN: 85-325-0905-3


O filósofo francês Michel Onfray está acostumado às críticas dos puristas. Afinal, ele luta para que a filosofia passe a encarar o corpo por inteiro. Ao falar de gastronomia, um de seus assuntos preferidos e tema de A razão gulosa – Filosofia do gosto, ele faz uso de todos os sentidos, incluindo, obviamente, o paladar e o olfato, discriminados por muitos dos colegas, que preferem enfatizar a visão e a audição, ao discorrerem sobre pintura e música, assuntos considerados mais dignos.

Onfray, hedonista até os últimos limites, pregando, acima de tudo, o prazer imediato, sentiu o doce sabor da revanche em 1993. Neste ano, ele recebeu o Prêmio Médicis de Ensaio, ao derrotar o favorito, o ilustre filósofo Gilles Deleuze, com seu livro A escultura de si.

Rebelde, o autor joga mais lenha na fogueira, com a publicação do premiado A razão gulosa: ele confere uma dignidade filosófica à gastronomia, arte efêmera e, portanto, representante hedonista. Ele quebra tabus, ao lançar a ciência da gula e invocar todos os sentidos, na relação com o vinho e a comida.

Através de uma agradável visita às mesas de várias épocas, o autor derrama sobre nós camadas de conhecimento, sob uma nova ótica. Presta um tributo a Dom Pérignon pela invenção do champanhe, fascina-se com a mágica preparação das aguardentes e celebra os banquetes do pai da crítica gastronômica, Grimod de La Reynière.

Um hedonista vulgar? Ledo engano. Onfray reverencia o ser, em contrapartida ao ter, ao consumo desenfreado. Seu hedonismo filosófico busca os atos conscientes. Ele, por exemplo, distingue embriaguez de ebriedade, este, um estado em que experimentamos a leveza, quando "o homem ainda se situa como sujeito da ação". O enófilo aponta a bebida como uma das chaves para a felicidade. Ao ingeri-la, Dionísio — o deus da festa — supera, momentaneamente, o racional Apolo. Afinal, "o vinho faz do corpo algo mais que um simples envelope do espírito: ele entusiasma, leva ao êxtase".

Além das viagens às adegas, Onfray passeia pelos rituais chineses do chá, pela Nova Cozinha e pela culinária futurista de Marinetti. E, por fim, celebra o hommo bulla, já que "a existência não durará mais do que as bolhas", diz, aproximando-se de Nietzsche. Sigamos, portanto, a sugestão do autor: "carpe diem", aproveite o dia. E, é claro, sua aula de refinada gastronomia.

Sobre o autor

Michel Onfray nasceu em Argentan, cidade medieval no Orne, França. Ele é doutor em filosofia e, desde 1983, leciona a disciplina em um liceu técnico local. Em 1985, ao sofrer um infarto, reformulou sua visão filosófica. Já publicou várias obras literárias, propondo sempre a teoria do hedonismo. Seus livros mais premiados e famosos são O ventre dos filósofos (Prêmio da Fondation Del Duca e Prêmio Chiavari), A escultura de si (Prêmio Médicis de l’Essai), e A razão gulosa (Prêmio Liberté Littéraire e Prêmio da Académie du Vin de Bordeaux).




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