O filósofo francês Michel Onfray está acostumado às críticas dos
puristas. Afinal, ele luta para que a filosofia passe a encarar o corpo
por inteiro. Ao falar de gastronomia, um de seus assuntos preferidos e
tema de A razão gulosa – Filosofia do gosto, ele faz uso de
todos os sentidos, incluindo, obviamente, o paladar e o olfato,
discriminados por muitos dos colegas, que preferem enfatizar a visão e
a audição, ao discorrerem sobre pintura e música, assuntos
considerados mais dignos.
Onfray, hedonista até os últimos
limites, pregando, acima de tudo, o prazer imediato, sentiu o doce
sabor da revanche em 1993. Neste ano, ele recebeu o Prêmio
Médicis de Ensaio, ao derrotar o favorito, o ilustre filósofo Gilles
Deleuze, com seu livro A escultura de si.
Rebelde, o
autor joga mais lenha na fogueira, com a publicação do premiado
A razão gulosa: ele confere uma dignidade filosófica à
gastronomia, arte efêmera e, portanto, representante hedonista. Ele
quebra tabus, ao lançar a ciência da gula e invocar todos os sentidos,
na relação com o vinho e a comida.
Através de uma
agradável visita às mesas de várias épocas, o autor derrama sobre
nós camadas de conhecimento, sob uma nova ótica. Presta um
tributo a Dom Pérignon pela invenção do champanhe, fascina-se
com a mágica preparação das aguardentes e celebra os banquetes
do pai da crítica gastronômica, Grimod de La Reynière.
Um
hedonista vulgar? Ledo engano. Onfray reverencia o ser, em
contrapartida ao ter, ao consumo desenfreado. Seu hedonismo
filosófico busca os atos conscientes. Ele, por exemplo, distingue
embriaguez de ebriedade, este, um estado em que experimentamos a
leveza, quando "o homem ainda se situa como sujeito da
ação". O enófilo aponta a bebida como uma das chaves para a
felicidade. Ao ingeri-la, Dionísio — o deus da festa — supera,
momentaneamente, o racional Apolo. Afinal, "o vinho faz do
corpo algo mais que um simples envelope do espírito: ele entusiasma,
leva ao êxtase".
Além das viagens às adegas, Onfray
passeia pelos rituais chineses do chá, pela Nova Cozinha e pela
culinária futurista de Marinetti. E, por fim, celebra o hommo
bulla, já que "a existência não durará mais do que as
bolhas", diz, aproximando-se de Nietzsche. Sigamos, portanto, a
sugestão do autor: "carpe diem", aproveite o dia. E, é
claro, sua aula de refinada gastronomia.
Sobre o
autor
Michel Onfray nasceu em Argentan, cidade
medieval no Orne, França. Ele é doutor em filosofia e, desde 1983,
leciona a disciplina em um liceu técnico local. Em 1985, ao sofrer um
infarto, reformulou sua visão filosófica. Já publicou várias obras
literárias, propondo sempre a teoria do hedonismo. Seus livros mais
premiados e famosos são O ventre dos filósofos (Prêmio da
Fondation Del Duca e Prêmio Chiavari), A escultura
de si (Prêmio Médicis de l’Essai), e A razão gulosa
(Prêmio Liberté Littéraire e Prêmio da Académie du Vin de
Bordeaux).