Que mistérios tem Clarice? Com esta interrogação, a professora
Teresa Cristina Montero Ferreira mergulhou no labirinto de enigmas
que transformou Clarice Lispector em uma das maiores escritoras do
país. Foi um mergulho acadêmico, com precisão de fatos, datas,
documentos e depoimentos, como exigem as pesquisas históricas por
excelência, porque Eu sou uma pergunta é também tese de
mestrado em literatura brasileira defendida na PUC do Rio de Janeiro.
Nesta biografia, a autora, sabiamente, foge das fantasias
sobre o que a escritora Clarice Lispector sentia ou pensava, equívoco
delirante de muitos biógrafos. Ela pontua a história da personagem
com fatos e documentos irrefutáveis, desde a imigração dos judeus
Lispector para o Brasil em 1922, quando Clarice ainda se chamava
Haia (vida, em hebraico), aos comentários de cada época deixados
pela escritora em cartas, entrevistas, poemas e livros, além de
depoimentos de amigos.
Eu sou uma pergunta – era assim
que Clarice Lispector costumava se definir – captura o leitor
justamente por este rigor de fatos, datas, cartas e documentos. Conta
uma história absolutamente verdadeira de Clarice Lispector, mas,
generosamente, deixa que o leitor imagine as respostas para todas as
questões da enigmática escritora: Por que ela era tão triste? Por que
teve mãe paralítica que mal falava e logo morreu? Por que se casou
com um diplomata que a deixaria ainda mais infeliz longe do Brasil?
Por que se separou depois de 16 anos de casamento? Como se
desenrolou seu amor por Paulo Mendes Campos?
O leitor
tenta responder a estas perguntas enquanto acompanha a deliciosa
carreira literária de Clarice Lispector, desde suas primeiras histórias
inventadas na infância, seu trabalho como repórter de jornal, as
aflições cotidianas da criação literária, a paixão platônica pelo escritor
Lúcio Cardoso, as amizades com os intelectuais e escritores mais
expressivos de seu tempo, entre eles, Érico Veríssimo, João Cabral de
Melo Neto, Hélio Pellegrino.
Já consagrada no Brasil e no
exterior, Clarice curiosamente ainda se angustiava com a crítica ou
com a possível relutância de editores em publicar seus novos
trabalhos. A mulher que era uma pergunta se desdobrava em milhares
de questões para as quais, ironicamente, não havia respostas em
palavras, metáforas de sentimentos indizíveis que ela cultivou ao
longo de sua vida.
Sobre a autora
Teresa Cristina
Montero Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1964. É mestre em
Letras pela PUC-RJ onde atualmente prepara uma tese de doutorado
em Literatura Brasileira.