Saber e sabor, corpo e alma. Roland Barthes
já afirmou que a lingua é gulosa; a literatura, nesse contexto, é sua
mais nobre iguaria. Pratos (em francês, mets) e palavras
(mots, no mesmo idioma) são os destaques de um delicioso
banquete editorial sob a forma de livro: Achados da Geração
Perdida, de Suzanne Rodriguez-Hunter. Um festim celestial onde
escritores, artistas, músicos e bailarinos da Paris dos anos 20, os Anos
Loucos, são os comensais.
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escargot a la Bourguignon com Hemingway e Scott Fitzgerald.
Reviva o banquete oferecido por Picasso ao pintor Henry Rousseau,
juntamente com George Braque e Apollinaire. Sente-se à mesa com
James Joyce e sua editora Sylvia Beach para beliscar ostras e
aspargos com maionese ao vinho tinto. Tome um chá com Gertrude
Stein. Deguste uma sopa de cebolas no mítico Les Halles, o grande
mercado no centro de Paris, com Man Ray e Kiki de Montparnasse.
Reúna os amigos e faça uma viagem no tempo através das receitas
culinárias da Geração Perdida e instale os "anos loucos"
em sua casa. Por que não?
Paris era
uma festa na década de 20 e é esta atmosfera que enche de aroma
inebriante o livro de Rodriguez-Hunter, uma história social da
intelectualidade de uma época, ávida para vivenciar "a maior
concentração de loucuras que o mundo já presenciou",
segundo Jimmie Charters, barman do Dingo Bar, referência
obrigatória para os artistas da Montparnasse. "Talvez nossas
expectativas fossem um pouco grandiosas, nossos desapontamentos
mais profundos: mas pelo menos aquela foi uma geração disposta a
descobrir, uma geração que tinha optado pela ousadia",
descreve Harold Loeb, o inspirador do personagem Robert Cohn em
O sol tambem se levanta, de Hemingway.
Em trinta esquetes apetitosos, a autora reconstitui
deliciosamente os prazeres da Geração Perdida, a primeira fornada
de artistas do Modernismo, "no único lugar do planeta que nos
dá a oportunidade de viver numa atmosfera normal para um ser
humano", nas palavras de Richard Wright. Paladar e boa
conversação sempre foram ingredientes obrigatórios no livro de
receitas do savoir vivre, o que pode se constatar prontamente
na reconstituição habilidosa da aura de uma época tão bem delineada
por Rodriguez-Hunter. Não fosse pelo diálogo ao redor de uma mesa,
a refeição seria mero pasto. Desta forma não nos diferenciariamos dos
animais. Estes podem encher o estômago em silêncio. Para os seres
humanos, trata-se de nutrir o corpo e a alma com o complemento de
uma amena conversação espirituosa, temperada pelos sabores mais
transcedentais. Daí tantas regras sobre o que dizer e como falar a
mesa. O diálogo congrega aqueles que a comida tenderia a separar,
por sua atração irresistivel. É para esta festa constante de inteligência
e bom gosto da década de 20 que Rodriguez-Hunter convida seus
leitores. Bon appétit!
Sobre a autora
Suzanne Rodriguez-Hunter é jornalista, colaboradora do
Washington Post, Los Angeles Times e Chicago
Tribune. Este é seu primeiro livro e foi elaborado durante o ano
em que viveu em Paris. Ela mora em San Francisco.