Cartas do coração — Uma antologia do
amor, organizado pela jornalista Elisabeth Orsini, é um daqueles
livros que devem ser saboreados com calma e emoção. Isso porque,
seja através dos amores bem-vividos ou da angústia sufocante das
paixões não realizadas — entre tantos outros belos exemplos
epistolares colhidos por Elisabeth —, o que se revela é um vertiginoso
mergulho num turbilhão de sentimentos alheios que acaba
convocando o leitor a (re)descobrir e, quem sabe, a (re)pensar suas
próprias afetividades.
O livro tem,
basicamente, três tipos de cartas: clássicas, raras e inéditas. No
primeiro, correspondência, por exemplo, de Van Gogh ao irmão Théo,
Beethoven à amada imortal e Byron a sua meia-irmã Augusta; no
segundo, James Joyce escreve a Nora Barnacle (com quem teve um
filho), Frida Kahlo conversa com seu marido Diego Rivera e
Graciliano Ramos pergunta a Heloisa Medeiros: "Estamos noivos
ou não?" Entre as inéditas, há cartas de Nelson Rodrigues a
Elza, José Guilherme Merquior a Hilda, Dostoievsky a Anna (nunca foi
publicada em língua portuguesa), Henry Miller a Brenda Venus (idem),
Villa-Lobos a Mindinha, Cazuza a Lucinha Araújo...
Elisabeth elaborou esta significativa coleção de
cartas buscando, acima de tudo, registrar as diversas possibilidades
de manifestação do amor. E, vasculhando não apenas a
correspondência de personagens de carne e osso como também
aquela trocada entre habitantes do universo literário — como os
inesquecíveis amantes de Ligações perigosas, de Choderlos
de Laclos.
O resultado é um rol de
amores maduros, febris, maternos, filiais e fraternos, amores doloridos,
cerebrais, resignados, impossíveis, amores que não vêem barreiras
entre sexo ou credo. O livro é organizado em capítulos que levam
títulos como "Fazendo a corte", "Frêmitos e arrebatamentos",
"Suspiros d'alma" ou "O amor à tarde". Neles, grandes personagens
da história de todos os tempos e artes, como Mozart, Rimbaud,
Fernando Pessoa, Oscar Wilde, D. Pedro I, Rui Barbosa, Camille
Claudel, Jorge Luis Borges, Henfil, Rosa Luxemburgo, Napoleão,
Olavo Bilac etc., são missivistas selecionados não pela nacionalidade,
época ou atividade, mas pela intensidade e sinceridade com a qual
registraram seus amores, felicidades, arrebatamentos e mágoas.
A própria Elisabeth se faz presente nesta obra
com uma pungente carta ao filho Marco Antonio e outra a "uma
estranha amizade". Personagem de sua história, a jornalista sabe que
as dores do coração aparecem sem escolher hora, motivo ou laços
afetivos.
Elisabeth Orsini é jornalista. Trabalhou 14
anos no Jornal do Brasil e há quatro está no O
Globo, atualmente no Caderno ELA. É separada, mãe de Marco
Antonio Orsini Neves, de 20 anos. Estudou jornalismo na UFF. É
autora de dois livros: Bons modos a nossa moda, em parceria
com Iesa Rodrigues e Os emergentes da Barra, junto com
Márcia Cezimbra.