Partilhando o mesmo instrumento — o corpo — a
dança e a sexualidade atravessaram séculos alternando
comportamentos, tabus, construções e reconstruções de modelos.
Fisiologia, genética, papéis sociais, prazer e dor são, não por acaso,
temas comuns a esses dois campos do universo humano. Foi nesse
viés, que investiga as relações entre a dança e as questões de
gênero, que se debruça a pesquisadora americana Judith Lynne
Hanna em Dança, sexo e gênero. Resultado de um estudo
abrangente e que não se detém diante das ciladas do politicamente
correto, o livro reúne informação histórica e análise social, para traçar
um mapa das imagens de homens, mulheres e gays dentro e fora dos
palcos.
Não é um livro sobre bailarinos e
suas opções sexuais. A autora está muito mais interessada nos
desdobramentos que as escolhas sexuais de criadores e bailarinos
podem ter na construção dos papéis sexuais em cena. Dali, usando
instrumentos variados como antropologia, teoria da cultura e
sociologia, Judith discute como esses papéis ganham mundo e
consolidam — ou pervertem — os conceitos do cotidiano das
pessoas.
O estudo de Hanna começa no
aprendizado dos papéis de homem e mulher e na construção de uma
realidade baseada em gêneros definidos. Segue pela herança erótica
de uma dança ritualizada e tribal até as codificações dos papéis
sexuais e sua possível — e quase sempre árdua — subversão. Padrões
de dominação, políticas de segregação e psicanálise compõem um
painel de sentidos e símbolos de fronteiras cada vez mais
esfumaçadas e que, no palco, podem servir, como na dança
moderna, para fazer da mulher a protagonista criadora que Martha
Graham imortalizou.
Do balé O
quebra-nozes aos espetáculos iconoclastas e geniais da dupla Bill
T. Jones/Arnie Zane, Judith Lynne Hanna abrange com coragem uma
boa parte dos aspectos mais difíceis em relação às definições e
contradições da dança deste século. Ilustrado, e em linguagem
simples mesmo para os leigos, o livro é um atalho no emaranhado das
questões limítrofes entre arte e vida. Sua leitura é um alerta sobre o
que ainda há para desconstruir nos antigos conceitos sexuais, e
também uma janela para as possibilidades revolucionárias da dança
como espelho
do mundo.
Sobre a
autora
Judith Lynne
Hanna é doutora em antropologia pela Columbia University e
pesquisadora de dança em países como a Nigéria. Costuma escrever
para publicações tão prestigiadas quanto Ballet Review,
Dance Magazine, Stagebill, The Washington
Post e Dance Spirit. Entre os livros que escreveu estão
Dance is human (1987), The performer-audience connection:
emotion to metaphor in dance and society (1983) e Partnering
dance and education: intelligent moves for changing times
(1999).