"Eu detesto a realidade. Mas, como
você sabe, é o único lugar no qual você pode conseguir um bom filé
para o jantar" (Woody Allen)
Quem não se
lembra desse filme ou, pelo menos, não conhece este título?
Noivo neurótico, noiva nervosa é um marco no cinema e na
carreira de Woody Allen. Lançado em 1977, abocanhou quatro
Oscars no ano seguinte — melhor filme, diretor, atriz e roteiro.
Contribuição fértil para a década de 70, que ficou conhecida como a
do renascimento do cinema americano, Allen e seus filmes
engraçados contrastavam, entretanto, com a atmosfera sombria de
outros cineastas que faziam sucesso em Hollywood. Este ensaio de
Peter Cowie é indispensável à biblioteca de cinéfilos e qualquer
pessoa que goste de cinema.
Falar de
Noivo neurótico, noiva nervosa é abordar comportamentos
que emergiram na década de 70 e se arrastaram pelos 80... O lance
era fazer análise, discutir a relação era essencial e os casais
acreditavam piamente que, assim, estavam absolutamente
sintonizados com o mundo moderno. Esses elementos estão em vários
filmes de Woody Allen e, especialmente em Noivo... , onde o
casal Alvy (interpretado pelo próprio cineasta) e Annie (Diane Keaton)
se esbalda em diálogos cômicos/profundos sobre casamento, sexo e
afetos múltiplos. Antológica é aquela cena em que cada um deles
está falando com os respectivos psicanalistas e a tela é dividida ao
meio para exibir ambas as cenas.
Mas qualquer livro, reportagem, documentário, enfim, qualquer coisa
que fale de Allen, enfrenta, hoje, um problema: como separar o
genial cineasta do homem que teve uma separação escandalosa de
Mia Farrow? Depois de anos de casamento (cada qual em sua casa),
ela descobriu que ele estava tendo um caso com uma de suas filhas
adotivas e revelou ao mundo uma faceta desconhecida e desprezível
de Woody Allen.
"Quase todo
o meu trabalho é autobiográfico — exagerado, porém verdadeiro",
disse ele. Isso tem um preço: seus personagens são julgados junto
com o cineasta, um notório egocêntrico cheio de complexos e
obsessões. Porém, com o mérito de ser a primeira pessoa a rir de si
mesmo e tornar extremamente risível todas as suas neuroses. É de
Groucho Marx, mas bem poderia ser de Woody Allen a célebre frase:
"Eu nunca faria parte de um clube que aceitasse alguém como
eu como membro." Noivo neurótico, noiva nervosa divide
com Manhattan a posição de filme preferido do cineasta.
Sobre o
autor
Peter Cowie é diretor do
departamento internacional da revista Variety, autor de obras
de caráter histórico sobre o cinema holandês e escandinavo, assim
como ensaios biográficos sobre os diretores Orson Welles, Ingmar
Bergman e Francis Ford Coppola. Editou recentemente o livro
comemorativo do centenário da invenção do cinema publicado pelo
British Film Institute.