Meditação sobre os fantasmas do
passado numa cidade do interior de Minas Gerais
Lançado
originalmente em 1967 e incluído pela Unesco numa coleção das
obras mais representativas da literatura mundial, Ópera dos
mortos é um dos romances que melhor espelha a temática e o
rigor formal de Autran Dourado. Sua narrativa é um mergulho no
passado da família Honório Cota a partir de um velho sobrado que,
em sua arquitetura barroca, já corroída pelo tempo, vai revelando o
destino de seus moradores, marcados pela tragédia, numa
cidadezinha no interior de Minas Gerais.
"O senhor atente depois para o velho sobrado
com a memória, com o coração", adverte um narrador que aos
poucos se confunde com a cidade onde reinava o coronel Lucas
Procópio Honório Cota. Homem valente, que impunha respeito pela
força e truculência, traços que passavam distante da personalidade
de seu filho e herdeiro, João Capistrano. Melancólico, em luta
permanente para se livrar do fantasma do pai, este fracassa na
política — sua única chance de se impor na cidade — e passa o resto
de seus dias trancado no sobrado que ergueu como uma espécie de
monumento à família.
Com o correr dos
anos, o casarão vai se impregnando cada vez mais dos fantasmas
dos antepassados, que transformam tudo, de objetos a ambientes,
em signos da morte. É neste ambiente opressivo e desolado que
Rosalina, filha única de Capistrano, vai viver depois da morte de seus
pais. Solteira, isolada do mundo e tendo como única companhia a
empregada Quiquina, que é muda, ela passa seus dias fazendo flores
de pano e vagando entre relógios parados e paredes
carcomidas.
A rotina do sobrado vai ser
alterada com a chegada de José Feliciano. Biscateiro, em busca de
trabalho de cidade em cidade, Juca Passarinho, como é chamado por
todos, vai aos poucos entrando no universo enigmático da casa e,
principalmente, na vida da austera Rosalina.
Cruzando as vozes dos diversos personagens em
comentários e contrapontos, Autran Dourado mostra que o título de
seu romance não foi escolhido ao acaso. Como no gênero musical a
que faz referência, é a certeza de um fim trágico e as emoções
arquetípicas que percorrem esta Ópera dos mortos, uma
meditação sobre os fantasmas do passado e, sobretudo, um exercício
de virtuosismo narrativo.
Sobre o autor
Waldomiro Autran Dourado nasceu em Patos de Minas em 1926.
Traduzido em diversos países, venceu o prêmio Goethe de 1982 com
o livro As imaginações pecaminosas. A Rocco inicia agora a
reedição da obra com sofisticado padrão gráfico. Além dos ensaios,
contos e romances já publicados no passado, será lançado, ano que
vem o inédito Gaiola aberta, com memórias políticas dos
tempos em que trabalhou com Juscelino Kubitscheck, no governo de
Minas e na Presidência da República. É casado e mora no Rio de
Janeiro.