Durante toda sua vida, Alfred Hitchcock
sofreu influência da mãe dominadora e sufocante. E sempre teve
pavor de pássaros. Estes dois componentes, juntos, talvez expliquem
por que o mago do suspense escolheu inocentes aves para compor
Os pássaros, baseado num conto de Daphne Du Maurier.
Espécie de apocalipse segundo Hitchcock, em que gaivotas, corvos,
todos os emplumados do planeta parecem encarnar forças do mal.
No livro Os pássaros (The birds) a americana Camille Paglia
manipula idéias assim e mais um sem-número de componentes
psicológicos, na tentativa de explicar a tempestade mental que deu
origem a essa obra-prima do cinema.
Ano passado, quando se comemoraram os 35 anos desse filme, o
British Film Institute entregou a Camille a tarefa de elaborar esse
ensaio, para incluí-lo na coleção BFI Classics. Já em Personas
Sexuais, livro que no início da década deu-lhe fama como
polemista, Camille fazia referências a Hitchcock. Em seu novo livro,
ela confessa que se sentiu "esmagada" quando viu Os
Pássaros pela primeira vez. "Considero-o uma ode perversa ao
glamour sexual feminino", ela diz.
Apaixonadamente e minuciosamente, ela vai
muito além das questões psicológicas. Disseca, por exemplo, cada um
dos efeitos especiais que o cineasta conseguiu, primeiro pensando
em pássaros mecânicos (que acabou usando apenas em algumas
cenas) e depois preferindo pássaros vivos. O que o levou, por
exemplo, a colar gaivotas pelos pés num telhado. E a lidar com
acidentes, como quando uma ave feriu a atriz Tippi Hedren num olho.
Em seu ensaio, a autora sugere que
Os pássaros se inclui entre as principais injustiças do Oscar. O
filme foi indicado apenas para a categoria efeitos especiais, que no
entanto ficou com o épico de Elizabeth Taylor, Cleópatra, que
Hitchcock considerava "apenas um monte de pessoas e cenários".
Realizado depois de Psicose e antes de Marnie, confissões
de uma ladra, esse filme, o primeiro grande sucesso popular do
cineasta, tem como ingredientes o suspense, a ansiedade, o terror, as
pulsões sexuais e a natureza destruidora e voraz.
Camille Paglia vai às entranhas de Hitchcock e
de sua obra, coloca-as para fora, mas sem as transformar em aves
empalhadas. É soberba ao revelar toda a arte, a poesia e a
determinação de um dos gênios deste século.
Sobre a
autora
Camille Paglia é professora de
Letras na Universidade das Artes de Philadelphia e autora de
Personas sexuais: arte e decadência de Nefertite a Emily
Dickinson, Sex, art and american culture e Vamps
& tramps: New essay.