Este livro reúne uma seleção de artigos
publicados por Jurandir Freire Costa na imprensa. O autor,
psicanalista, ocupa hoje um papel singular de pensador que coloca o
saber a serviço da melhoria da sociedade, que oferece a teoria como
instrumento de ação, que analisa, com rara percepção, um país
traumatizado por injustiças, imerso em culpa e carente de equilíbrio e
paz. Razões públicas, emoções privadas é dividido em
capítulos com "ganchos" sobre livros e autores, cinema,
questões do dia-a-dia e o amor. A obra é arrematada com diálogos
sobre o amor romântico, a reboque das inúmeras solicitações de
leitores de seu último livro, Sem fraude nem favor, publicado
no início deste ano.
O autor flagra
episódios que fazem parte de um cotidiano que perdeu seu aspecto
extraordinário, apesar do horror nele embutido. Como a morte de um
doente mental, José Cláudio Barbosa, de 39 anos, mais uma vítima do
descaso do sistema de saúde pública. Desigualdades que matam
pessoas todos os dias sem que haja culpados ou conseqüências.
"Depois, pedimos paz. Mas paz tem mão dupla. Paz é acordo,
reciprocidade e solidariedade. Austeridade econômica e progresso
social exigem sacrifícios. Mas, de quem? De todos ou apenas
dessa gente. Mortes como essas voltam sob a forma de
seqüestros, assaltos, tráfico, assassinatos ou farsa religiosa",
alerta ele.
Sob o título de "Mas
dizei uma só palavra...", Jurandir comenta o filme "O
primeiro dia", de Daniela Thomas e Walter Salles Jr. Em seu belo
texto, ele se pergunta (e nos pergunta), afinal, qual é o sentido do
absurdo brasileiro — se é que pode haver sentido no absurdo. Em
"Cenas de humilhação coletiva" aponta para a grosseria e
falta de respeito de um programa de TV que entrevistou adolescentes
para ilustrar reportagem sobre uma espécie de síndrome de Magda, a
personagem bonita e burra do humorístico "Sai de Baixo".
"Alguém da produção pensou no que uma daquelas garotas
poderia sofrer vendo-se retratada como burra diante da família, do
namoradinho, dos colegas da escola etc.?"
Jurandir Freire Costa relembra o caso dos
cinco garotos que atearam fogo e mataram o índio pataxó Galdino
Jesus dos Santos. E pergunta: "O que estamos fazendo com
nossos filhos? Por que, em vez de aproveitar esse maravilhoso
potencial de energia, entusiasmo e generosidade, estamos
robotizando-os e convertendo-os no lixo do que a cultura do consumo
produziu?"
Caráter (ou falta
dele), liberdade, tirania da intimidade ("A privacidade burguesa
nos levou a crer que a felicidade consiste em satisfazer as aspirações
da vida afetiva"), baixeza e grandeza, contradições, emoções,
razões, culpas, consolo, desespero, ética, esperança... Esta é uma
obra do pensamento. Para ler, pensar e descruzar os braços
enquanto ainda é tempo.
Sobre o autor
Jurandir Freire Costa nasceu em
1944, no Recife. É médico e psicanalista, com mestrado em
etnopsiquiatria pela École Pratique des Hautes Études de Paris, além
de professor do Instituto de Medicina Social da UERJ. Publicou vários
livros, dentre os quais A ética e o espelho da cultura e Sem
fraude nem favor, ambos da editora Rocco.