Aos 74 anos e viúvo há sete, Goethe se
apaixonou por uma jovem de 19, que era muito bonita e bem nascida.
Depois de a cortejar algum tempo, acompanhando-a em passeios,
chás e bailes, ele fez a Ulrike von Levetsow um pedido de casamento
que não foi aceito. A decepção, em vez de abatê-lo, levou-o a
escrever um dos seus mais belos poemas, a "Elegia de
Marienbad", que é a parte principal da Trilogia da paixão,
agora traduzida pela primeira vez no Brasil. Publicada em edição
bilíngüe, o livro faz parte das comemorações dos 250 anos de
nascimento do maior autor da Alemanha.
Nas Conversações com
Eckermann, o amigo e discípulo que registrou dia-a-dia, ao longo
da última década de sua vida, seus pensamentos mais importantes,
Goethe disse, depois de ter vivido essa paixão pela moça, que
determinadas pessoas estão sujeitas a fases de "puberdade
repetida", durante as quais se enchem de extraordinária energia,
tornando-se incomumente produtivas. Como que a confirmar essa tese
sobre os benefícios do amor, Goethe saiu do enlevo por Ulrike para
um período de grande criatividade, muito raro em pessoas de idade
tão avançada. Além de escrever numerosos outros poemas e uma
batelada de ensaios literários e científicos, ele reviu e levou à
conclusão algumas de suas obras mais expressivas, entre as quais a
segunda parte de Fausto, só completada já à beira da
morte.
No ensaio que se segue à
tradução da Trilogia da paixão, o poeta Leonardo Fróes, que
estudou na Alemanha quando jovem e há quase 40 anos se dedica à
obra de Goethe, estabelece ligação entre as fases de
"puberdade repetida" do "sábio de Weimar" e
os jorros de criatividade que sempre as acompanharam. Na verdade,
Ulrike von Levetsow não foi a única menina bonita a despertar
interesse em Goethe. Com várias outras, como Bettina Brentano, de
22 anos, Minna Herzlieb, de 18, e Silvie von Ziegesar, de 21, ele
também se envolveu a fundo, em paixões que deixaram marcas
visíveis na sua obra lírica e ficcional. Do relacionamento afetivo com
Marianne von Willemer, por exemplo, que estava com 30 anos
quando seus destinos se cruzaram, resultou o Divã
ocidentoriental, uma das obras mais originais de Goethe, na qual
ele adaptou à sensibilidade européia os padrões da poesia persa,
onde a fusão de amor e misticismo é a nota de mais alto relevo.
Sobre Leonardo Fróes
Contemplado com o Prêmio Jabuti de Poesia em
96 e com o Prêmio Paulo Rónai, de tradução, da Biblioteca Nacional,
em 98, Leonardo Fróes teve toda a sua obra poética, até então
dispersa, reunida em Vertigens, lançado pela Rocco ano
passado. É um dos tradutores brasileiros mais respeitados,
graças aos trabalhos realizados em grandes clássicos, como Swift e
George Eliot, e de autores modernos de estilo inovador e
extremamente difícil, como Faulkner e Malcolm Lowry. Leonardo mora
em Petrópolis, no Rio.
Ao
escrever sobre Goethe, uma paixão da adolescência que o
acompanhou pela vida, Leonardo Fróes não se limita a enfocar a
movimentada vida amorosa desse homem multiforme que fundiu
poesia e ciência com a mesma grandeza com a qual foi, em
momentos distintos, um expoente do romantismo e do classicismo.
Seu ensaio, de fato, é uma introdução à obra de Goethe, onde os
livros mais notáveis do mestre, como o Werther, as
Afinidades eletivas, o Fausto, a saga de Wilhelm
Meister e Poesia e verdade, são apresentados ao leitor
brasileiro.