A vida como um círculo que tem na
amizade e no amor os seus pontos principais
A amizade é uma força criadora e subversiva.
Curiosa definição essa do irlandês John O'Donohue que, em seu livro
Anam Cara — Um livro de sabedoria celta, disseca o tema de
forma arrebatadora, ampla, inquietante e, por isso mesmo,
interessantíssima. Com intensa poesia, sempre viajando pelos
terrenos da filosofia e da espiritualidade, o autor defende que a
amizade, tanto quanto o amor, "não deve ser limitada a um
relacionamento exclusivo ou sentimental". Anam é a palavra
gaélica para alma; e cara, para amigo. Anam
Cara é o amigo da alma, uma pessoa a quem se podem revelar
as intimidades ocultas da própria vida.
O
"amigo da alma", claro, não pode isolar o sentimento da amizade.
Para compartilhá-lo, o melhor recurso é a prece, apresentada no livro
como "o ato e a presença de enviar a luz da fartura do nosso amor a
outras pessoas, para curá-las, libertá-las e abençoá-las". Pois quando
existe amor na nossa vida devemos "partilhá-lo espiritualmente com
aqueles que foram empurrados para a margem da vida".
Não se trata, entretanto, de um livro sobre
amizade. É sobre a vida. Com a sabedoria celta, ensina a sabedoria
do bem-viver. Começa falando da amizade ao corpo, que "é o nosso
lar de argila, o nosso único lar no universo", e dizendo que "o corpo
está na alma", e não o contrário, como supõe o materialismo
ocidental. Discorre sobre o trabalho como "a poética do crescimento:
um anseio do invisível por se exprimir em nossas ações". A memória é
o local onde os nossos dias desaparecidos se reúnem secretamente e
reconhecem que um coração apaixonado nunca envelhece. E a
morte é a companheira invisível que percorre conosco a estrada da
vida, desde o nascimento.
Não é à toa
que, segundo Aileen Boyle, do Harper-Collins, Anam
Cara tornou-se um best-seller nos Estados Unidos e
permaneceu cinco semanas como o nº 1 na Irlanda. A explicação é a
atmosfera de encantamento que envolve cada parágrafo. John
O'Donohue afirma: "O nascimento do coração humano é um processo
contínuo. Ele está nascendo a cada experiência da vida". Nascendo
e crescendo.
Sobre o autor
John
O’Donohue é um pesquisador católico. Doutor em teologia pela
universidade de Tübingen em 1990, ele publicou um livro sobre a
filosofia de Hegel, na Alemanha, em 1993 (Person als
Vermittlung). O’Donohue dá palestras e conferências em todo o
EUA e Europa. Vive na Irlanda.