Em Educação pelo argumento,
o professor e pesquisador Gustavo Bernardo propõe uma ousada
reformulação nos critérios de ensino e avaliação dos alunos da rede
escolar. Segundo ele, hoje, os professores ensinam de maneira
errada e avaliam o resultado de maneira mais errada ainda. Isso
porque não há estímulo à argumentação, peça chave de qualquer
raciocínio. O autor propõe a criação de um eixo interdisciplinar — todas
as disciplinas em torno de um objetivo comum — para desenvolver a
capacidade argumentativa dos alunos.
Ele defende que o modo como os fatos são encarados é muito mais
importante do que os fatos em si. Qualquer exemplo banal demonstra
isso: decorar o nome dos afluentes da margem direita do rio Amazonas
pouco ajudaria a alguém que se perdesse por lá. Ser capaz de
enunciar fatos, nomes ou resultados de contas complexas também
não ajuda a raciocinar. O autor diz que o modelo de ensino atual é
acomodado e falido, e o compara ao sistema prisional: a escola
ensina tanto quanto uma penitenciária recupera delinqüentes.
Bernardo, inclusive, vê semelhanças entre uma escola e um presídio.
Para isso usa a figura do panopticon, citado por Michel
Foucault em Vigiar e punir e que parte do princípio da
fábrica-prisão: "Instituições que, no fundo, obedecem aos
mesmos modelos e aos mesmos princípios de funcionamento;
instituições do tipo pedagógicas como escolas, orfanatos, centros de
formação, instituições correcionais como a prisão."
A base dessa distorção é o exame contínuo, a
prova, os testes. O sujeito torna-se culpado (burro) até que faça uma
prova e prove o contrário. Prova onde não pode haver consulta e o
resultado final interessa mais do que a própria capacidade
argumentativa de quem está sendo avaliado. "A nota é um
sistema precário de estímulo à aprendizagem, muito mais próximo do
chicote e do tablete de açúcar do domador de cavalos."
Gustavo Bernardo defende um sistema
de avaliação inteiramente centrado em textos que estimulem a
capacidade de argumentação, no qual a cola vira consulta
necessária e sem espaço para as famigeradas provas de múltipla
escolha. O que é proposto por ele está anos-luz à frente do atual
modelo de ensino. Talvez por isso mesmo, suas revolucionárias idéias
são absolutamente necessárias — basta ver os catastróficos resultados
do "provão" do Ministério da Educação.
Sobre o
autor:
Gustavo Bernardo é Doutor
em Literatura Comparada e professor de Teoria da Literatura na
Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Publicou ensaios e
romances. É carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio.