Este livro cumpre uma missão rara e difícil: a
de escrever sobre o ato de escrever, mas de maneira particular, que
revele os segredos, os truques, a invenção e as aflições do fazer
poético. Essa tarefa, Autran Dourado considera fundamental, não
apenas como contraponto ao trabalho acadêmico dos críticos, mas,
especialmente, para a formação dos jovens escritores brasileiros. O
fazer poético — que ganha muito mais força se narrado pelo próprio
autor — é escasso entre os escritores nacionais. Autran Dourado cita
exemplos pioneiros como José de Alencar, Manoel Bandeira e Mário
de Andrade.
Os "bastidores" dos
romances de Autran Dourado demonstram, já em sua narrativa,
quanto a exposição sobre o fazer literário é importante para a
formação do escritor e para a própria literatura. Autran surpreende até
os leigos com a arquitetura sofisticada de alguns romances, como
O risco do bordado, por exemplo. A obra é dissecada em sua
essência de "livro desmontável", estruturado em capítulos-painéis,
cuja ordem de leitura pode ser alterada, sem prejuízo da qualidade do
romance. Ele observa que esta estrutura é antiga na literatura
brasileira. Está presente também em Vidas secas, de
Graciliano Ramos, embora só muito mais tarde tenha se popularizado
através do sucesso internacional de O jogo da amarelinha, de
Júlio Cortázar, no qual o autor sugeria várias seqüências de leituras
possíveis do romance.
Na segunda
parte, intitulada Matéria de carpintaria, Autran Dourado fala
sobre sua prática literária e tece comentários sobre a feitura de um
texto. O autor é generoso ao detalhar sua carpintaria: as fontes de
inspiração, a elaboração de cada personagem, os impasses e as
soluções vivenciadas em cada um de seus romances. A riqueza da
poética de Autran Dourado não apenas fala de si, mas de outros
grandes escritores brasileiros como José de Alencar, Machado de
Assis, Guimarães Rosa, Mário de Andrade e muitos outros
estrangeiros, do fazer poético de cada um, da origem do encanto dos
personagens e das tramas de cada história.
Sobre o autor
Waldomiro Autran Dourado nasceu em Patos de Minas,
Minas Gerais, em 1926. É casado e mora há mais de 40 anos no Rio
de Janeiro. Tem obras traduzidas para vários idiomas; já recebeu 8
prêmios no Brasil e, na Alemanha, o prêmio Goethe de Literatura. A
Rocco está reeditando as obras selecionadas e revistas pelo autor,
entre romances, contos e ensaios. Até agora, foram relançados: A
serviço del-Rei, Ópera dos mortos, Um artista aprendiz, Novelário de
Donga Novais, A barca dos homens, O risco do bordado e Os
sinos da agonia. Este ano, será lançado o inédito Gaiola
aberta, com memórias políticas e pessoais dos tempos em que
trabalhou com Juscelino Kubitscheck, no governo de Minas e na
Presidência da República.
As capas das
reedições da obra do autor são feitas especialmente pelo gravurista
Ciro Fernandes