Nos dez contos que formam a coletânea
Estranha aparição, Luiza Lobo mergulha em conflitos de
relacionamento, fala de sexo, repensa a cultura brasileira, exibe
referências literárias e expõe algumas tragédias públicas da História
recente do Rio de Janeiro e do Brasil. O ponto de partida é o
dia-a-dia: experiências pessoais, comentários de amigas, histórias que
beiram o realismo fantástico.
O conto
que dá nome ao livro é uma dessas narrativas ouvidas e reinventadas
por Luiza. De um fato curioso, macacos que visitavam apartamentos,
dada a proximidade entre varandas e mata, ela flerta com o fantástico.
Em A mulher a( r )mada, mostra o drama da mulher que vive
pressionada e tenta se libertar da sociedade, passando a uma
situação grotesca, no limite do absurdo.
Em relatos onde não falta uma certa dose de
ironia, a autora exagera os planos e as fantasias de gente normal, até
as fronteiras da loucura. As reflexões sobre a cultura brasileira
ganham destaque em A guerra dos Orixás, que trata de uma
batalha cultural entre a mitologia grega e as crenças africanas. A idéia
precisou ser amadurecida durante anos até que pudesse ser
concretizada pela autora na forma de um jogo de xadrez. O ano de
98, em que Luiza desfia uma série de infortúnios, sintetizando um
Brasil que não dá certo, foi escrito sob o calor dos
acontecimentos.
Em seu quinto livro
de contos, Luiza Lobo acentua uma linguagem mais ágil, quase
cinematográfica, buscando uma comunicação maior com o público.
Em nome desta aproximação, a autora deixa de lado um pouco o
estilo de seus livros anteriores, marcado pelos jogos de palavras.
"Quero me comunicar mais com o público. Por vezes, se ficamos
só brincando com as palavras, corremos o risco de perder a
objetividade. Quis tornar este livro dinâmico, já que as pessoas hoje
estão comprometidas com a rapidez e não sobra tempo para nada. O
jogo de palavras quase não é sentido nesta obra, as imagens estão
cada vez mais fortes, como um sonho que toma conta da cena",
afirma a autora, cujo maior desejo é ter um de seus contos transpostos
para as telas de cinema.
Mesmo
dando uma feição cinematográfica à sua linguagem, Luiza mantém
suas preocupações estéticas: "o texto tem que soar bem".
Então reescreve-os quantas vezes forem necessárias até que a forma
lhe seja satisfatória. Um processo criativo prolongado, na contramão
do imediatismo da vida moderna. "Não sou um autor masculino,
obsessivo. Posso ter uma idéia, um insight e retomá-la em
diferentes momentos."
Sobre autora
Luiza Lobo nasceu no Rio de Janeiro e é professora de Literatura
Comparada da Faculdade de Letras da UFRJ. Publicou os livros de
contos Por trás dos muros (1976), Vôo livre (1982),
Maçã mordida (1992) e Sexameron (1997), além de
ensaios e traduções. Seus contos e poemas foram publicados na
revista carioca José, da qual participou, entre outros jornais e
revistas do Rio de Janeiro, Lisboa e Havana.