A vida de Ben Ellison não era
má. Ex-agente da CIA, advogado de relativo sucesso, boa
casa, boa mulher, bons ternos, QI invejável e memória
prodigiosa. Mas também tinha uma grande mancha no
passado: foi o causador, ainda que involuntariamente, da morte de
sua primeira esposa. Largou a agência de
informações por conta disso. Pensou em nunca mais se
envolver com o assunto. Mas as coisas nem sempre ocorrem como a
gente quer.
Joseph Finder narra em
Poderes extraordinários a caminhada de Ben Ellison
em direção ao inferno de seu passado, o que transforma
o livro em algo mais do que uma trama de espionagem. Claro,
há os tradicionais seguranças de queixo duro e
paletó engomado, óculos escuros, viagens
internacionais e até alguns nomes em russo para decorar. Mas
não é tudo. O fim da Guerra Fria exige de uma
história mais do que uma batalha entre bons e maus. Exige
perícia para contá-la. E Finder sabe como fazer
isso.
Tudo começa com a morte
de Harrison Sinclair, principal diretor da CIA e, não por acaso,
atual sogro de Ellison. O velho morreu em circunstâncias
suspeitas, deixando um rastro de negociatas e contas gordas
escondidas num banco europeu. É para investigar essas
suspeitas que o ex-agente volta à ação,
forçado a retomar o trabalho sujo e limpar o nome do pai de sua
mulher e acertar as contas com o passado.
Poderes extraordinários retoma a
tradição dos grandes romances de espionagem movidos
a sexo, ação e mentiras. Mas, embaralhado a esses
ingredientes, Finder narra com um certo humor fino, nascido da
insegurança de seus personagens. Ninguém é
de todo mau, bom, forte ou fraco. Até os chefões
(aqueles que parecem esculpidos em gelo) têm medo do
ridículo. "Numa sociedade como a nossa, os fundadores
da CIA reconheceram que o maior risco para sua existência
não é a injúria pública, mas o
escárnio", diz lá pelas tantas um maioral da
Agência. Rir de si mesmo (exercício que os personagens
se submetem constantemente) é uma capacidade rara, e
está aí o verdadeiro poder de fogo do autor. Um poder
nada ordinário.
Sobre o autor
Joseph Finder
nasceu em Chicago, em 1958, e passou a infância no
Afeganistão e nas Filipinas. Estudou no Yale College e no
Centro de Pesquisas Russas de Harvard. Perito em CIA e em
política internacional, escreve para The New York
Times e The Washington Post. Seu romance Hora
zero, publicado pela Rocco, foi vendido para vinte países
e para o cinema. O autor mora em Boston, com a esposa e uma filha.