Apenas 14 quilômetros separam os marroquinos da costa da
Andaluzia, na Espanha. Para os protagonistas do aclamado romance
de estréia de Laila Lalami, a distância é também econômica, política e
cultural. Para transpô-la, eles arriscam a vida em botes infláveis e
clandestinos, mal equipados e sobrecarregados. A esperança é
uma travessia é um relato preciso e delicado de algumas dessas
vidas e sonhos jogados diariamente ao mar em arriscadas travessias
do Mediterrâneo.
Laila Lalami começou a escrever A
esperança é uma travessia depois de ler uma pequena nota,
publicada no site do jornal francês Le Monde, sobre um grupo
de quinze imigrantes que morreram ao tentar cruzar o estreito de
Gibraltar à noite, em pequenos botes infláveis. Ela já vivia há oito
anos nos Estados Unidos quando se deparou com o primeiro de uma
série de registros sobre imigração ilegal de marroquinos. Com realismo
e precisão quase jornalísticos, Lalami utiliza o fato como ponto de
partida de seu romance.
Em comum, os protagonistas Faten,
Murad, Aziz e Halima possuem a esperança de um recomeço na
Espanha. Eles são apresentados ao leitor no momento em que a vida
deles se cruza: sentados no barco clandestino, no qual enfrentam a
travessia. Não há lugar para todos no bote. Alguns passam frio, outros
passam mal, poucos mantêm o humor e a convicção diante do medo
da travessia. Ao final, todos são jogados ao mar, entregues à própria
sorte. Apenas dois imigrantes conseguem entrar na Espanha, os
demais são interceptados pela polícia espanhola e extraditados.
É apenas depois de descrever a travessia que Lalami apresenta
os personagens. Murad é formado em literatura inglesa e mal
consegue ganhar uns trocados levando turistas para visitar os
endereços de Paul Bowles em Rabat. Faten é uma jovem estudante
que leva a religião às últimas conseqüências e se vê forçada a tentar
a vida em outro país depois de perder, pela segunda vez, a chance
de conseguir um diploma. Halima é uma dedicada e sofrida mãe de
família, casada com um homem violento e alcoólatra, que foge da
violência doméstica e luta para alimentar os filhos numa favela
marroquina. Aziz é um jovem mecânico recém-casado, que deixa a
esposa no Marrocos para trabalhar como lavador de pratos em
Madri.
Juntos, os personagens compõem um amplo
panorama da sociedade marroquina, com seus problemas sociais,
altas taxas de desemprego e crises políticas. Apenas dois deles
conseguem cruzar a fronteira. Mas, nem para eles, há redenção: Aziz
mal reconhece sua esposa quando volta a Rabat depois de anos de
trabalho duro na capital espanhola. Faten alimenta os sonhos dos
clientes que encontra nas ruas de Madri com fantasias das mil e uma
noites, e não consegue sustentar sua fé ou manter seus hábitos
culturais.
A esperança é uma travessia revela um país
em crise e uma população desiludida, que aposta na imigração como
única saída e na religião como amálgama que dá forma a este
mosaico cultural. Laila Lalami descreve seu país de origem sem
condescendência ou nostalgia e mostra ainda como o islamismo
representa um consolo para uma sociedade esfacelada.